Expansão acelerada das energias renováveis pressiona planejamento, amplia riscos e eleva exigência por segurança regulatória no País
Por Pedro Augusto
O avanço acelerado do setor energético brasileiro, impulsionado sobretudo pelas fontes renováveis, expõe limitações estruturais que colocam em xeque a capacidade do País de sustentar a atração de capital estrangeiro no longo prazo. Embora o Brasil registre números robustos — com mais de US$ 84 bilhões em investimento estrangeiro direto no setor e capacidade instalada superior a 200 GW —, especialistas apontam que o descompasso entre crescimento da geração e a capacidade de planejamento e escoamento da energia tem criado gargalos relevantes, especialmente na transmissão e na coordenação do sistema.
Para Roberta Demange, sócia do Pinheiro Neto Advogados, o investidor internacional não busca apenas volume de oportunidades, mas previsibilidade. “Não se busca apenas capital, mas também segurança jurídica; mais do que o volume, importa a forma e a estrutura em que esse investimento é realizado.”
Representando o poder público, Guilherme Zanetti Rosa, diretor de planejamento e outorgas de transmissão e distribuição de energia elétrica e interligações internacionais no Ministério de Minas e Energia, afirmou que o País construiu ao longo de décadas uma base regulatória sólida que ainda sustenta a atratividade do setor. “A segurança jurídica e regulatória é um pilar essencial em qualquer projeto estruturante de infraestrutura”, disse.
Segundo ele, o histórico recente de leilões de transmissão, marcados por alta competitividade, reforça esse interesse. Ainda assim, o cenário atual impõe novos desafios. A mudança no perfil de expansão, com maior peso do mercado livre e entrada acelerada de fontes renováveis, aumentou a complexidade do planejamento.
“Hoje a gente planeja um sistema que vai operar daqui a sete ou dez anos, mas os problemas mudam muito mais rápido do que isso”, afirmou. Esse descompasso, segundo ele, intensifica-se com a entrada de grandes cargas, como data centers e projetos de energias baseadas no hidrogênio, que pressionam ainda mais a necessidade de expansão da infraestrutura brasileira.

Painelistas, da esquerda para a direita: Roberta Demange, Ricardo Motoyama, Guilherme Zanetti Rosa e Fabio Jacob, durante o Painel 2 – Infraestrutura Energética: perspectivas do Brasil para o investimento internacional, no 4º Fórum Econômico Brasil-Canadá
Reprodução/CCBC
Do lado dos investidores, o principal ponto de atenção é o impacto direto dessas distorções na rentabilidade dos projetos. Ricardo Motoyama, vice-presidente comercial e de novos negócios na Elera Renováveis, destacou que o chamado curtailment (corte obrigatório na geração) já afeta de forma significativa o setor.
“Um dos maiores parques solares do hemisfério sul (Complexo Solar Janaúba, no norte de Minas Gerais) teve corte de geração da ordem de 25%”, afirmou. “Isso significa 25% da receita que não entrou; não há plano de negócio que sustente isso em projetos de 30 ou 40 anos”, afirmou.
Para ele, a ausência de uma solução estruturada para o problema compromete a expansão futura. “Sem endereçar esse tema sob a perspectiva do governo, da tarifa e do investidor, a gente não consegue desenvolver novos projetos”, disse.
Apesar das incertezas, o diagnóstico de Fabio Jacob, managing director e head de infrastructure & investment banking no Scotiabank, não é de falta de recursos, mas de maior rigor na alocação de capital. “O dinheiro existe”, afirmou.
Segundo ele, o mercado de capitais brasileiro já se consolidou como fonte relevante de financiamento para projetos de infraestrutura, inclusive no setor elétrico. Ainda assim, investidores e credores têm elevado o nível de exigência diante dos riscos percebidos.
Nesse contexto, a previsibilidade se torna determinante. Projetos de infraestrutura energética operam com horizontes de 20 a 40 anos, o que amplia a sensibilidade a mudanças regulatórias, incertezas operacionais e falhas de coordenação do sistema.
Entre as possíveis soluções discutidas estão a modernização das regras de acesso à rede, o uso de tecnologias como baterias para aumentar a flexibilidade do sistema e ajustes no modelo de planejamento para lidar com a nova dinâmica do setor.
Avanço de data centers e IA amplia pressão sobre infraestrutura energética
A nova fronteira dessa pressão sobre a infraestrutura energética vem do avanço acelerado da economia digital. No painel do Fórum Econômico dedicado ao papel dos data centers, especialistas destacaram que a expansão da inteligência artificial está redefinindo o perfil de demanda por energia no país.
“O data center deixou de ser um acessório de tecnologia da informação; hoje, ele é infraestrutura crítica”, foi destacado durante o debate.
Impulsionados pela popularização da inteligência artificial generativa, esses ativos passaram a exigir não apenas grande volume de energia, mas também confiabilidade e baixa latência, o que intensifica a pressão sobre o sistema elétrico e sua capacidade de expansão coordenada.

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Além do consumo elevado, o caráter estratégico também ganha relevância. A discussão apontou que soberania de dados e segurança nacional passaram a integrar o debate sobre investimentos nesse tipo de infraestrutura.
Do ponto de vista operacional, um dos principais entraves volta a dialogar diretamente com os gargalos já apontados no setor elétrico: o acesso à rede. “Hoje a maior dificuldade não é gerar energia; é se conectar ao sistema”, afirmou Sergio Abela, diretor executivo de operações na Ascenty.
Nesse contexto, a necessidade de marcos regulatórios mais claros e de políticas públicas específicas também entrou na pauta. A avaliação é que o Brasil ainda trata data centers de forma híbrida, entre ativo imobiliário e tecnologia, quando, na prática, já deveriam ser enquadrados como infraestrutura estratégica de longo prazo. A mudança de percepção, segundo os participantes, é fundamental para viabilizar investimentos compatíveis com a escala de crescimento da economia digital — e para evitar que os mesmos gargalos já identificados no setor elétrico se tornem um entrave também à expansão da infraestrutura digital no País.

