Nova economia global aproxima Brasil e Canadá em agenda de energia e mineração

Realizado pela CCBC, Fórum Econômico reuniu autoridades e executivos em São Paulo para discutir cooperação bilateral em recursos estratégicos

Por Pedro Augusto

As mudanças em curso na economia global, impulsionadas pela transição energética, pela reorganização das cadeias produtivas e pela crescente disputa por recursos naturais, já começaram a redesenhar o mapa do comércio internacional. Nesse novo cenário, Brasil e Canadá surgem como parceiros naturais em setores estratégicos como os de energia e mineração. Para discutir este tema e também maneiras para abrir novas portas para um comércio bilateral consistente, autoridades diplomáticas, empresários e especialistas dos dois países se reuniram na 4ª edição do Fórum Econômico Brasil-Canadá, realizada neste mês de abril, em São Paulo.

A ideia é incentivar empresas brasileiras e canadenses a aproveitarem oportunidades que se abrem em cima da chamada ‘nova economia’ para estreitar relacionamentos comerciais. De um lado há um movimento global, por parte de países aderentes à agenda da sustentabilidade, pela substituição gradual de fontes fósseis de energia – como petróleo, carvão e derivados – por outras renováveis (solar, eólica e hidrelétrica, por exemplo). Esse processo, acelerado por metas climáticas e pressões regulatórias, vem exigindo investimentos massivos em infraestrutura energética e novas tecnologias.

De outro, a eletrificação da economia, com destaque para a massificação de veículos mais sustentáveis, além do armazenamento de energia e digitalização industrial, elevou de forma significativa a demanda por minerais estratégicos, como lítio, níquel, cobre e terras raras, insumos essenciais para a produção de baterias, turbinas eólicas, painéis solares e redes elétricas.

Ao mesmo tempo que o mundo busca soluções para uma transição energética, em prol da sustentabilidade, tensões geopolíticas e rupturas logísticas recentes expuseram a vulnerabilidade das cadeias globais de suprimento mais tradicionais e derivadas do petróleo. Esse contexto leva países e empresas a buscar fornecedores em mercados alternativos, além de diversificar suas fontes de insumos. É nesse contexto que parcerias bilaterais ganham relevância, conforme destacado pelo presidente da Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC), Hilton Nascimento.

“Vivemos um período de transformações profundas na economia global; a reorganização das cadeias produtivas, as tensões geopolíticas, a transição energética e a crescente disputa por recursos estratégicos têm levado países a revisitar suas parcerias e a buscar maior diversificação econômica”, afirmou.

Minerais críticos no centro da agenda

A alta demanda por minerais críticos também foi um dos temas centrais do fórum e que ajuda a impulsionar mudanças estruturais na economia global. Recursos como lítio, cobalto, grafite e terras raras são hoje insumos-chave para a transição energética e para a indústria de alta tecnologia.

O lítio é essencial para baterias de veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia. As terras raras, por sua vez, são utilizadas em ímãs permanentes presentes em turbinas eólicas, motores elétricos e equipamentos eletrônicos. Já o cobre é indispensável para redes elétricas e infraestrutura de transmissão.

Nesse cenário, Brasil e Canadá aparecem como parceiros complementares. Os canadenses se destacam como um dos principais polos minerais do mundo, com dezenas de minas ativas de minerais críticos, capacidade instalada de processamento e um setor que movimentou cerca de US$ 40 bilhões ao PIB canadense em 2023, de acordo com o governo canadense. O País reúne base tecnológica e empresas consolidadas ao longo da cadeia produtiva.

O Brasil, por sua vez, combina reservas minerais abundantes, escala territorial e uma matriz elétrica majoritariamente limpa, cerca de 78,5% da geração vem de fontes renováveis, segundo o ministério de Minas e Energia. Essa vantagem é estratégica para atrair indústrias intensivas em energia, como refino e processamento mineral.

Essa convergência de atributos ajuda a explicar o momento da relação bilateral. “Para o Canadá, o Brasil não é apenas um parceiro bilateral; é um parceiro estratégico em escala global”, afirmou o embaixador do Canadá no Brasil, Emmanuel Kamarianakis, ao destacar o potencial de cooperação em cadeias ligadas à energia e mineração.

Ex-ministro das Relações Exteriores e embaixador do Brasil no Canadá durante sua apresentação no 4º Fórum Econômico Brasil-Canadá
Reprodução/CCBC

Na mesma linha, o embaixador do Brasil no Canadá, Carlos França, disse que o contexto atual elevou o peso desses setores na economia global. “Mineração, energia e infraestrutura deixaram de ser apenas setores econômicos e passaram a representar pilares centrais da competitividade global.”

O desafio de agregar valor

Apesar das vantagens, um dos principais pontos levantados no fórum foi o risco de o Brasil permanecer concentrado na exportação de matérias-primas, sem avançar para etapas de maior valor agregado.

Hoje, grande parte dos minerais extraídos no País é exportada com baixo nível de processamento. Em 2025, o Brasil embarcou mais de 430 milhões de toneladas de produtos minerais para o exterior, com forte predominância de commodities como o minério de ferro, que responde por mais de 60% das exportações do setor, segundo a consultoria KPMG. O próprio governo brasileiro reconhece a necessidade de ampliar o processamento local para capturar mais valor nas cadeias produtivas, hoje concentradas em etapas realizadas fora do País.

O debate indicou que o entrave não é apenas geológico, mas estrutural, envolvendo ambiente de negócios, política industrial e capacidade de coordenação. “Hoje o Brasil não tem benefícios fiscais suficientes; a gente precisa de mecanismos para ser competitivo e atrair essas cadeias de refino”, afirmou Marisa Cesar, presidente do conselho da Associação de Minerais Críticos, durante o Fórum Econômico.

Na avaliação dos especialistas, transformar potencial mineral em capacidade industrial exige avançar em etapas como refino, processamento químico e desenvolvimento tecnológico, elos que concentram maior geração de valor.

Ao mesmo tempo, o País reúne condições consideradas favoráveis no cenário internacional. “A gente tem energia barata no momento em que a energia encarece no mundo inteiro, e temos os principais minerais críticos”, afirmou Oswaldo DalaTorre, sócio da TozziniFreire Advogados, ao destacar as vantagens comparativas do Brasil.

A janela de oportunidade está aberta. O desafio, segundo os especialistas, é garantir que o Brasil avance além da condição de fornecedor de recursos naturais e consiga se posicionar como elo industrial relevante nas cadeias globais de valor.

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