Embaixador Eric Walsh assume o principal posto diplomático do Canadá em Brasília com objetivo claro: transformar o enorme potencial das relações bilateral já existentes em oportunidades concretas
Por Pedro Augusto
Recém-chegado ao Brasil, onde desembarcou em agosto para assumir o comando da Embaixada do Canadá e de sua rede de consulados, o diplomata de carreira Eric Walsh inicia sua missão em um momento de aproximação entre os dois países e de novas oportunidades na relação bilateral. Em entrevista exclusiva à News CCBC, ele aponta o comércio, investimentos, minerais críticos, energia limpa, inovação, ciência e educação como frentes potenciais para ampliar essa cooperação. Trata também dos avanços nas negociações do Acordo de Livre Comércio Canadá-Mercosul, que, segundo ele, o governo canadense gostaria de ver concluído até o fim de 2026. Confira:
News CCBC – Como o senhor avalia o atual momento das relações entre Canadá e Brasil?
Eric Walsh – As relações entre Canadá e Brasil vivem um momento muito positivo. Temos uma parceria sólida e madura, construída não apenas sobre valores democráticos compartilhados, mas também sobre fortes laços entre nossos povos e uma relação econômica cada vez mais dinâmica. Trabalhamos juntos em uma ampla gama de setores, como energia limpa, minerais críticos, inovação, ciência e agricultura. Mas essa relação vai muito além dos negócios. Também cooperamos em prioridades comuns, como assuntos indígenas e ação climática.
O Canadá está comprometido em aprofundar sua relação com o Brasil, e o nível de engajamento que vimos ao longo do último ano demonstra isso claramente. Recebemos a visita do ministro canadense do Comércio Internacional, que fez avançar as negociações do Acordo de Livre Comércio Canadá-Mercosul, e da nossa ministra das Relações Exteriores, que veio ao país para o Diálogo de Parceria Estratégica, realizado a cada dois anos. Esse encontro ajudou a definir uma agenda bilateral ambiciosa para o próximo ano, com novos acordos e iniciativas de cooperação em áreas como gestão aduaneira, liberdade de imprensa, saúde e combate a incêndios florestais.
A força dessa relação não deve ser medida apenas pelo que acontece entre governos. Os vínculos entre as pessoas são igualmente importantes, e a educação talvez seja um dos melhores exemplos de como esses laços se aprofundaram. Há mais de 15 anos, milhares de brasileiros estudam no Canadá por meio de programas de intercâmbio, incluindo iniciativas que oferecem a alunos da rede pública de ensino médio a oportunidade de frequentar escolas canadenses. Eles voltam ao Brasil trazendo amizades, experiências e conexões com o Canadá que podem durar a vida inteira.
E esse intercâmbio acontece nos dois sentidos. Universitários canadenses vêm regularmente ao Brasil para estudar e conhecer o país de perto. Nossas universidades também têm construído parcerias importantes de pesquisa, em áreas que vão da medicina e da ciência veterinária à gestão de recursos hídricos e à área ambiental.
Por isso, quando falamos da relação entre Canadá e Brasil, estamos falando de muito mais do que acordos entre governos ou comércio entre empresas. É uma relação construída ao longo do tempo entre nossas instituições e, sobretudo, entre nossos povos. Depois de 85 anos de relações bilaterais, temos uma base muito sólida sobre a qual continuar construindo. E ainda há muito espaço para avançarmos juntos.
News CCBC – Quais são as perspectivas para essa relação e quais serão suas prioridades no Brasil?
Walsh – Essa relação tem um enorme potencial, e minha prioridade é clara: transformar esse potencial em oportunidades concretas para os dois países. As negociações de livre comércio entre Canadá e Mercosul são uma parte importante desse processo. Um acordo bem-sucedido poderá abrir portas para empresas canadenses e brasileiras, facilitar os negócios nos dois sentidos e criar novas oportunidades de investimento.
Mas o comércio é apenas parte dessa história. Canadá e Brasil são grandes economias, têm abundantes recursos naturais, setores agrícolas fortes e um papel importante na transição energética. Há muito que podemos fazer juntos em energia limpa, minerais críticos, ação climática e crescimento sustentável. Outra prioridade será aprofundar a colaboração em inovação e pesquisa e fortalecer as parcerias e os intercâmbios na área da educação.

Além do comércio, existe uma oportunidade de ampliar os investimentos entre nossos países. O Canadá está realizando grandes investimentos em energia, infraestrutura, defesa e inteligência artificial, ao mesmo tempo em que avança em reformas regulatórias para atrair novos capitais e acelerar grandes projetos. Isso cria oportunidades para empresas e investidores brasileiros à medida que o Canadá diversifica suas parcerias econômicas — assim como queremos ver mais empresas canadenses investindo e crescendo aqui no Brasil.
Por fim, quero contribuir para uma relação cada vez mais de mão dupla: mais comércio, mais investimentos, mais inovação e mais colaboração entre nossos países.
News CCBC – Quais setores apresentam maior potencial para fortalecer os laços bilaterais?
Walsh – Se eu tivesse que destacar um setor, mineração e minerais críticos provavelmente estariam no topo da lista. Canadá e Brasil são líderes globais em mineração e possuem muitos dos minerais necessários para avançar nas transições energética e digital. Isso abre várias possibilidades de cooperação – desde a troca de conhecimento e a construção de cadeias de suprimentos mais resilientes e sustentáveis até a colaboração com o Brasil na implementação de seu novo Plano Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
Mas as oportunidades vão muito além da mineração. Tecnologias limpas e energias renováveis, incluindo hidrogênio, tecnologias para redução de carbono e infraestrutura sustentável, são áreas em que nossos países têm muito a oferecer um ao outro. A agricultura é outro setor fundamental, no qual já vemos resultados concretos. O potássio, principal produto exportado pelo Canadá para o Brasil, continua contribuindo diretamente para a produção agrícola brasileira.
Também não podemos deixar de mencionar as parcerias em pesquisa. Elas aproximam nossas universidades e nossos pesquisadores, impulsionam a inovação e criam relações que podem durar décadas. Esse tipo de conexão é essencial para dar continuidade ao fortalecimento da relação entre Canadá e Brasil.
News CCBC – O senhor espera que um acordo entre Mercosul e Canadá seja concluído em breve? Quais benefícios ele poderia trazer?
Walsh – Nosso ministro do Comércio Internacional, Maninder Sidhu, já afirmou que gostaria de ver um acordo concluído até o fim de 2026, portanto o compromisso do Canadá é claro. Ao mesmo tempo, negociações comerciais são complexas, e é sempre difícil prever exatamente quanto tempo levarão.
O mais importante é o impacto que um acordo poderia ter sobre a relação econômica. Ele criaria novas oportunidades de comércio e, ao mesmo tempo, fortaleceria os vínculos comerciais que já existem. Ao ampliar o acesso aos mercados, reduzir barreiras e oferecer maior previsibilidade, podemos criar condições para que empresas canadenses e do Mercosul invistam, cresçam e construam parcerias de longo prazo em nossos mercados.
Há também uma razão mais ampla para que esse acordo seja especialmente relevante neste momento. Em um cenário em que os países buscam diversificar suas relações comerciais e construir cadeias de suprimentos mais resilientes, aproximar Canadá e Mercosul faz sentido tanto do ponto de vista estratégico quanto econômico. Continuaremos trabalhando intensamente para chegar a um acordo que gere oportunidades e contribua para o crescimento, a geração de empregos e a inovação em todos os nossos países.
News CCBC – Quais aprendizados de sua carreira diplomática o senhor considera mais relevantes diante do atual cenário geopolítico?
Walsh – Uma das principais lições que aprendi ao longo da minha carreira é que a comunicação se torna ainda mais importante nos momentos difíceis. Em períodos de incerteza ou de mudanças rápidas, precisamos de relações construídas sobre confiança, consistência e disposição para ouvir.
Isso é particularmente importante no mundo em que vivemos hoje. Seja quando falamos de mudanças climáticas, segurança econômica ou instabilidade global, estamos diante de desafios que nenhum país consegue enfrentar de maneira eficaz sozinho. Precisamos de parceiros, diálogo e formas práticas de trabalhar juntos.
Quero fazer a minha parte para manter abertos e sólidos os canais de comunicação entre nossos dois países e encontrar maneiras concretas de Canadá e Brasil trabalharem juntos para enfrentar os desafios atuais e alcançar resultados que beneficiem ambos. Precisamos de parceiros confiáveis. E, no fim das contas, as parcerias mais sólidas não são construídas apenas sobre interesses comuns, mas também sobre respeito mútuo. Esses são princípios que me acompanharam ao longo de toda a minha carreira e que continuam orientando a forma como trabalho hoje.
News CCBC – O senhor já havia visitado o Brasil ou esta é sua primeira vez no país? Quais foram suas primeiras impressões do Brasil e dos brasileiros?
Walsh – Acredite ou não, esta é a minha primeira vez no Brasil. Até agora, já visitei Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo, e cada cidade me impressionou de uma maneira diferente. Estou descobrindo rapidamente o quanto o Brasil é diverso. Cada lugar parece ter personalidade e cultura próprias e sei que ainda conheci apenas uma pequena parte de tudo o que o País tem a oferecer.
Uma das coisas que mais me chamaram a atenção foram as pessoas. Fiquei impressionado com a receptividade e a generosidade dos brasileiros e com o enorme orgulho que demonstram pelo País. Os brasileiros também parecem ser muito pacientes e tolerantes – pelo menos quando estou tentando falar português! Isso tornou minhas primeiras semanas aqui ainda mais agradáveis. Agora estou incentivando todos os meus amigos e familiares a virem conhecer o Brasil. Assim, além de descobrirem o país por conta própria, ainda me dão uma ótima desculpa para explorá-lo junto com eles. Espero, portanto, ter muito mais histórias para contar nos próximos meses.

