Da timidez ao Vis Moot, a trajetória que ajuda a formar a nova arbitragem brasileira

Ex-integrante do comitê gestor da NewGen CAM-CCBC, o árbitro Bernard Potsch (à dir.) conta como competições acadêmicas, workshops e conexões pessoais vêm preparando uma geração mais plural e mais pronta para o mercado

Por Pedro Augusto

Bernard Potsch se lembra bem do desconforto de falar em público. Foi ainda estudante, treinando a equipe da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) para o Vis Moot, em Viena, que decidiu enfrentá-lo de frente. “Eu buscava um pouco quebrar a minha timidez. Queria começar a treinar mais o falar e o argumentar em público, que entendia como essenciais para uma advocacia eficaz”, relembra. Foi o início de uma trajetória que, anos depois, o levaria a ajudar a moldar o futuro da arbitragem brasileira. Só que, desta vez, do outro lado da mesa.

Hoje árbitro e advogado da Batista Martins Advogados, Potsch integrou o comitê gestor da New Generation CAM-CCBC desde a criação da comissão, em 2019, e permaneceu na iniciativa por duas gestões. A NewGen do Centro de Arbitragem e Mediação da Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CAM-CCBC) estimula o desenvolvimento de novos profissionais da área de resolução de disputas. Para Potsch, existe uma lição que se repete na conversa com cada nova geração: só a experiência de escritório não é suficiente.

“Na maior parte das vezes, apenas estar no escritório não basta. Você precisa ir além, se qualificar e estabelecer seu círculo de contatos”, afirma. Foi com essa ideia em mente que a NewGen foi pensada: menos como um departamento formal e mais como uma plataforma aberta, em que os próprios jovens propõem ideias e encontram meios de tirá-las do papel.

Foi assim, conta Potsch, que nasceram iniciativas que hoje têm vida própria. Um exemplo é um workshop criado por associados da comissão que, com o tempo, foi ganhando espaço e passou a fazer parte do próprio calendário fixo de atividades do CAM-CCBC. Outro é o curso de Legal Writing, voltado à escrita jurídica e especialmente útil para as equipes que disputam competições de arbitragem.

Ampliar quem tem acesso à comunidade arbitral também sempre esteve entre as prioridades da comissão. “Desde o início, fizemos questão de levar a arbitragem para fora do eixo Rio-São Paulo, com eventos no Nordeste, no Sul, no Centro-Oeste e no Norte do País”, conta Potsch. A diversidade entrou nessa mesma agenda, com a criação de um conselho dedicado ao tema e iniciativas para ampliar a participação de diferentes perfis na comunidade. A ideia, segundo o ex-integrante do comitê gestor, é fazer com que as oportunidades cheguem também a profissionais que enfrentam mais dificuldade de acesso – seja por questões econômicas, geográficas ou pela falta de uma rede de contatos.

As competições acadêmicas de arbitragem aparecem no relato de Potsch como uma peça central dessa formação. Foi ali, afinal, que a própria trajetória dele começou. A experiência de treinar a equipe da UERJ no Vis Moot, entre 2010 e 2018, o aproximou de estudantes e professores de diferentes jurisdições e ajudou a construir uma rede de profissionais que, segundo ele, permanece ativa até hoje. No Brasil, a expansão dessas competições abriu novas portas para estudantes interessados em arbitragem, enquanto o apoio do CAM-CCBC passou a incluir eventos preparatórios, encontros acadêmicos e sociais e, mais recentemente, o próprio curso de Legal Writing.

Uma geração que já nasce dentro da arbitragem

Na avaliação de Potsch, essa nova geração chega ao mercado diferente das anteriores: muitos profissionais têm contato com a área ainda na faculdade e já passam pelas competições antes mesmo de começar a trabalhar. “É uma geração que foi formada por meio de participações nas competições. Dificilmente, atualmente, você vê alguém envolvido em arbitragem que não tenha participado dessas competições ao longo da faculdade”, avalia.

Ele também destaca o papel da tecnologia na forma como esses profissionais aprendem e se relacionam. “A nova geração está utilizando as novas tecnologias para manter esse contato, aprender melhor e alcançar novos patamares, mas sem perder a força da socialização que sempre moveu essa comunidade”, afirma. Para o advogado, o crescimento da arbitragem brasileira aumenta também a responsabilidade de quem está chegando agora. “A arbitragem brasileira cresceu muito e está passando das dores da adolescência para começar sua vida adulta. Essa vida adulta exige uma nova geração preparada não só para se aproveitar do mercado, mas também para desenvolvê-lo e defendê-lo”, conclui Potsch.

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