Mineração responsável é chave para futuro da economia sustentável, dizem especialistas

Demanda crescente por minerais críticos amplia pressão sobre o setor e reforça necessidade de integrar comunidades, alinhar regulações e consolidar cooperação Brasil-Canadá

Por Pedro Augusto

A transição energética avançará se governos, empresas e comunidades atuarem em cooperação. Nesse contexto, setores como o de mineração são foco importante de atenção. Esse foi o tom dado por executivos de mineração, energia renovável e finanças sustentáveis durante o painel Transição Energética e Financiamento Sustentável, do Summit Brasil-Canadá, que ocorreu em novembro, em São Paulo. Eles debateram como os dois países podem estruturar cadeias produtivas capazes de atender à demanda crescente por minerais essenciais.

Segundo especialistas, houve um aumento global da procura por cobre, níquel e cobalto, impulsionado pela demanda por baterias, parques eólicos, data centers e tecnologias digitais. Este cenário é tido como um vetor inevitável de pressão sobre o setor extrativo – contexto que demanda atuação conjunta de diferentes esferas da sociedade.

“O diálogo contínuo com as comunidades é essencial”, disse Tatiana Ricota, diretora de Sustentabilidade da Elera Renováveis. Ela exemplificou como a empresa lida com o assunto a partir do trabalho desenvolvido no Complexo de Janaúba, em Minas Gerais. “Tivemos a aprovação social superior a 90%, após consultas contínuas com a comunidade local”.

A escuta ativa também foi lembrada como crucial por Mônica César, gerente geral de Assuntos Corporativos da Vale Base Metals, para empresas que desejam promover a sustentabilidade efetiva junto às populações da área de abrangência de seus empreendimentos.  “A transição energética só será legítima se for inclusiva, com escuta ativa e planejamento junto às comunidades”. Ela lembrou que as operações responsáveis precisam garantir que benefícios socioeconômicos permaneçam após o ciclo de vida de exploração das áreas de mineração.

Regulação e financiamento sustentável

O setor de mineração enfrenta desafios regulatórios que necessitam de adaptações. Luciano Santos, diretor Jurídico da Lundin Mining, destacou que os requisitos legais demandam flexibilidade para tornar os negócios viáveis. Um dos caminhos, segundo ele, é promover a colaboração entre reguladores, empresas e comunidades antes de desenvolver e executar os projetos.

Além disso, os empreendimentos precisam de financiamento sustentável. Para impulsionar a cadeia de mineração – que é de capital intensivo –, uma maneira é analisar experiências de fora e torná-las viáveis conforme as realidades locais. “Taxonomias climáticas mais modernas incorporam diversidade, integridade e impacto socioambiental como critérios centrais”, afirmou Florian Roulle, vice-presidente de Finanças Sustentáveis da Finance Montréal.

O especialista disse que o Brasil e o Canadá têm avançado em sistemas dessa ordem. “Eles não precisam ser idênticos, mas capazes de trabalhar juntos. Essa diretriz reduz risco, aumenta confiança e destrava capital para cadeias inteiras, da agricultura à mineração”. Roulle observou ainda que, hoje, os recursos têm migrado de projetos isolados para estratégias de transformação setorial, especialmente nos intensivos em minerais críticos.

Parceria estratégica

A cooperação Brasil-Canadá é um elemento transversal para uma transição energética sustentável. O Brasil traz vantagens geológicas e alta oferta de eletricidade renovável. Em 2024, o país apresentava uma matriz energética composta por 88% de fontes limpas. O Canadá, por sua vez, oferece tecnologias de mineração de baixo impacto, certificações ESG, sistemas digitais de rastreabilidade e expertise em financiamento sustentável.

As duas nações oferecem oportunidades concretas de intercâmbio, como transferência de tecnologia para processamento de minerais críticos, harmonização de padrões ambientais, modelos de taxonomia verde e parcerias acadêmicas para pesquisa aplicada. Para que os avanços ocorram, os especialistas destacaram que as comunidades não podem arcar sozinhas com os custos da transição e que mineradoras precisam distribuir valor, garantir benefícios locais e construir relações duradouras que consolidem a chamada “licença social para operar”.

A transição energética como alavanca econômica

A transição energética precisa ser compreendida como alavanca econômica e não apenas como agenda ambiental. Essa foi a mensagem de Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEólica), que convergiu com os pontos de vista dos especialistas do painel Transição Energética e Financiamento Sustentável.

Ao tratar de desafios geopolíticos e necessidade de financiamento a países em desenvolvimento, Elbia disse que a transição energética precisa ser entendida como um negócio. “Quando governos e empresas encaram esse movimento como oportunidade de investimento, a implementação acontece porque é guiada por lógica econômica, competitividade e inovação tecnológica”.

Ela também destacou que o Brasil reúne condições singulares para se tornar o maior hotspot de investimentos em energia limpa do mundo, em virtude do potencial renovável da matriz elétrica e capacidade de produção de biocombustíveis de baixo carbono.”

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