Do Ceará à Nova Scotia: Sinergias na Economia Azul entre Brasil e Canadá

Por Igor Gonçalves, Romulo Soares e Marina Rocha*

O Ceará ocupa uma posição singular no setor pesqueiro brasileiro ao combinar dois ativos estratégicos: relevância na pesca oceânica de alto valor agregado e liderança em aquicultura marinha.

No contexto nacional, o Brasil registrou aproximadamente 479 mil toneladas de captura pesqueira extrativa em 2024, somando pesca artesanal e industrial. Dentro desse cenário, o Ceará se destaca especialmente na captura de espécies pelágicas de maior valor comercial internacional, com forte presença na cadeia do atum.

Em 2023, o estado capturou cerca de 10,7 mil toneladas de atum (Thunnus spp.), além de aproximadamente 11,3 mil toneladas de yellowfin (T. albacares), sendo um dos principais polos brasileiros da pesca oceânica de alto valor voltado ao mercado internacional, segmento que vem sendo objeto de crescentes investimentos industriais na região.

Essa vocação exportadora aparece com clareza nos dados de comércio exterior. Em 2024, o setor pesqueiro do Ceará respondeu por aproximadamente US$ 93,8 milhões em exportações de pescados, mantendo a liderança nacional e respondendo por cerca de 25% de todas as exportações brasileiras de pescado, participação que se sustenta há mais de uma década. O perfil fortemente exportador é liderado historicamente pela lagosta, com presença relevante do atum e de peixes vermelhos como pargo, cioba, ariacó e guaiúba.

Na aquicultura marinha, o protagonismo é ainda mais evidente. O Ceará é o maior produtor de camarão cultivado do Nordeste, com mais de 83 mil toneladas registradas em 2024, inserido em uma base produtiva robusta e com potencial de expansão em segmentos como pescado processado e produtos de maior valor agregado.

Por que o Canadá, e especialmente Nova Scotia, faz sentido?

A relação comercial com o Canadá ainda é incipiente em termos absolutos, mas vem crescendo em ritmo expressivo, e esse dinamismo é exatamente o que chama atenção. Os dados de exportação do setor entre 2023 e 2025 ilustram esse potencial, tanto pelo valor comercializado quanto pela participação relativa do Ceará no total nacional.

As exportações cearenses passaram de US$ 525 mil em 2023 para US$ 2,05 milhões em 2025, crescimento expressivo de aproximadamente 291% no período. Esse avanço refletiu também um ganho expressivo de participação relativa nas exportações nacionais no mercado canadense, de cerca de 19,2% em 2023 para 33,1% em 2024, estabilizando-se em 28,2% em 2025.

Em termos nacionais, as exportações brasileiras, impulsionadas sobretudo pelo pargo e outras categorias de pescados congelados, apresentaram evolução de US$ 2,7 milhões em 2023 para US$ 7,3 milhões em 2025, crescimento de aproximadamente 167% no período.

O Ceará figura, portanto, como um dos principais vetores de dinamismo nas exportações nacionais de pescado para o mercado canadense, ampliando consistentemente sua participação ao longo do tempo.

Do lado canadense, há complementaridades relevantes. Nova Scotia é uma potência pesqueira global, com a indústria do setor contribuindo com mais de CAD 1,68 bilhão para a economia provincial. A região lidera a produção canadense de produtos nos quais o Brasil possui forte demanda importadora, como vieiras, lagostas de água fria, bacalhau, salmão e mariscos premium. Atualmente, as importações brasileiras de pescado provenientes do Canadá são altamente concentradas em poucas categorias, com as vieiras congeladas respondendo pela maior parte do volume, o que indica espaço para diversificação desta pauta comercial em ambas as direções.

A oportunidade real: comércio, tecnologia e conhecimento

O potencial da relação Ceará–Nova Scotia vai além da compra e venda de pescado.

Nova Scotia construiu ecossistemas avançados em tecnologia oceânica, reunindo empresas, startups, pesquisadores e instituições em áreas como monitoramento marinho, aquicultura sustentável, rastreabilidade pesqueira e tecnologia embarcada. O hub COVE e a Dalhousie University são dois dos principais motores dessa estrutura, atuando em geomática oceânica, sistemas autônomos e gestão de recursos marinhos, competências diretamente aplicáveis aos desafios do setor pesqueiro cearense.

O Bedford Institute of Oceanography, o maior centro canadense de ciências oceânicas, conta com mais de 600 cientistas, engenheiros e técnicos, e integra uma rede de instituições com capacidade de diálogo com demandas concretas do Ceará: rastreabilidade de cadeias, adequação sanitária de frotas, certificações internacionais e acesso a mercados.

Para o Ceará, essa conexão representa uma oportunidade de acelerar a transição de um modelo focado majoritariamente em commodities pesqueiras para uma economia do mar mais sofisticada, baseada em inovação, valor agregado e integração internacional.

O estado já possui escala produtiva e vocação exportadora estabelecida. Nova Scotia possui expertise tecnológica e acesso consolidado a mercados globais. A articulação entre ambos pode estruturar um corredor bilateral de economia azul no Atlântico com potencial estratégico relevante para as duas regiões.

Há um oceano entre o Ceará e o Canadá, mas ele pode funcionar muito mais como rota de acesso do que como distância.

  • Igor Gonçalves

Coordenador CCBC – Chapter Ceará

Presidente da Câmara Setorial de Comércio Exterior e Investimentos Estrangeiros da Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará

Sócio do APSV Advogados

  • Romulo Soares

Presidente da Câmara Setorial de Economia Azul da Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará

Sócio do APSV Advogados

  • Marina Rocha

Profissional da área de COMEX e Negócios Internacionais do APSV Advogados

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da CCBC sendo de inteira responsabilidade do autor que assina este conteúdo.

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