Infraestrutura digital e energia: por que o Ceará entrou no radar global de investimentos em data centers

Por André Menescal

A expansão da infraestrutura digital tornou-se uma das pautas estratégicas da economia global. A crescente demanda por computação em nuvem, inteligência artificial e processamento de grandes volumes de dados está acelerando investimentos em data centers e ampliando a importância da infraestrutura energética capaz de sustentar esse crescimento.

Esse tema estará no centro das discussões do 4º Fórum Econômico Brasil–Canadá, que acontecerá em 15 de abril e contará com um painel dedicado aos desafios da infraestrutura energética para data centers. A expansão da economia digital tem aumentado significativamente a demanda por energia e levado governos, investidores e empresas a reavaliar quais países e regiões estão melhor posicionados para sediar essa nova geração de infraestrutura tecnológica.

Nesse cenário, países capazes de oferecer conectividade internacional robusta, disponibilidade energética e segurança regulatória passaram a atrair a atenção de investidores e operadores globais de infraestrutura digital.

O Brasil tem se destacado progressivamente nesse debate e, dentro do país, algumas regiões vêm assumindo papel cada vez mais relevante nessa nova geografia da economia de dados.

O Nordeste brasileiro, especialmente o estado do Ceará, aparece com frequência crescente em análises de mercado e projetos de infraestrutura digital. Esse movimento resulta da convergência de fatores estruturais que tornam o estado um candidato natural a se consolidar como hub regional para data centers.

A corrida global por capacidade computacional

O avanço da inteligência artificial e da digitalização da economia está impulsionando uma corrida global por infraestrutura computacional.

Data centers deixaram de ser apenas ativos tecnológicos e passaram a ser considerados parte da infraestrutura crítica das economias modernas.

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os data centers consomem atualmente cerca de 415 TWh de eletricidade por ano, aproximadamente 1,5% do consumo global de energia elétrica. A demanda pode mais que dobrar até 2030, alcançando cerca de 945 TWh, impulsionada principalmente pela expansão da inteligência artificial e da computação em nuvem.

Esse crescimento coloca a infraestrutura energética no centro das decisões de investimento. Mais do que capacidade computacional, trata-se de garantir fornecimento energético confiável, escalável e sustentável.

Treinamentos de modelos avançados de inteligência artificial podem demandar megawatts de potência durante semanas ou meses, exigindo planejamento energético e redes elétricas capazes de suportar cargas concentradas.

Por que o Brasil tem atraído investimentos

Nos últimos anos, o Brasil passou a ganhar espaço nas discussões globais sobre expansão de data centers.

Três fatores ajudam a explicar esse interesse.

O primeiro é o tamanho do mercado digital brasileiro. O país possui uma das maiores populações conectadas do mundo e um ecossistema digital em rápida expansão.

O segundo é a matriz energética brasileira. O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais limpas entre grandes economias. Segundo dados do Ministério de Minas e Energia, cerca de 85% da eletricidade brasileira é gerada a partir de fontes renováveis, principalmente hidrelétrica, eólica e solar.

O terceiro é a disponibilidade territorial para expansão de novos polos de infraestrutura digital fora dos grandes centros tradicionais.

Essa combinação tem levado investidores a observar com mais atenção regiões com forte conectividade internacional e potencial energético.

É nesse contexto que o Nordeste passou a ganhar destaque.

Ceará: conectividade estratégica no Atlântico

Entre os estados nordestinos, o Ceará reúne algumas características que explicam por que passou a aparecer com maior frequência em discussões sobre novos projetos de infraestrutura digital.

Um dos fatores mais relevantes é sua posição estratégica no mapa global de conectividade.

Fortaleza tornou-se um dos principais hubs de cabos submarinos da América Latina. A cidade abriga cerca de 16 cabos submarinos internacionais, conectando diretamente o Brasil à América do Norte, Europa e África.

Entre eles estão Monet, EllaLink, Seabras-1, SACS e South Atlantic Inter Link, utilizados por grandes operadoras e empresas de tecnologia.

Essa infraestrutura reduz significativamente a latência na transmissão de dados e torna o território particularmente atraente para operações digitais que dependem de conectividade internacional de alta capacidade. A concentração de cabos faz com que uma parcela significativa do tráfego internacional de dados que chega ao Brasil passe por Fortaleza, consolidando a cidade como ponto estratégico da infraestrutura digital nacional.

Além disso, o IX.br Fortaleza, ponto de troca de tráfego operado pelo NIC.br, registra picos superiores a 6 Tbps, consolidando a cidade como um dos principais hubs de conectividade da América Latina.

Investimentos e infraestrutura digital no Ceará

O fortalecimento de Fortaleza como hub de conectividade internacional tem sido acompanhado pelo desenvolvimento gradual de infraestrutura local de telecomunicações e data centers.

Entre os projetos relevantes está o data center da Angola Cables em Fortaleza, parte da rede internacional de conectividade da empresa.

Grandes empresas globais de tecnologia também utilizam a infraestrutura de cabos que chegam ao Ceará. Projetos envolvendo Google, Meta, Microsoft e outras empresas internacionais participam de consórcios de cabos submarinos que passam por Fortaleza, reforçando o papel da cidade na rede global de dados.

Esse ambiente cria condições favoráveis para a instalação de novos data centers próximos aos pontos de aterrissagem dos cabos internacionais.

Energia e competitividade

A expansão de data centers depende, acima de tudo, de energia.

Grandes instalações de processamento de dados exigem fornecimento elétrico confiável e em larga escala, tornando a infraestrutura energética um fator central para investidores.

Nesse aspecto, o Nordeste apresenta vantagens importantes.

De acordo com a ANEEL, a região responde por mais de 85% da capacidade instalada de energia eólica do Brasil.

O Ceará participa desse processo com forte presença de parques eólicos e solares, além de infraestrutura de transmissão conectada ao Sistema Interligado Nacional.

Essa combinação entre energia renovável abundante e conectividade internacional cria um ambiente particularmente atrativo para operadores de infraestrutura digital.

Projetos em estruturação

Além da infraestrutura existente, novos projetos começaram a ser estruturados no estado.

Entre eles está o plano para implantação de um complexo de data centers na Zona de Processamento de Exportação do Pecém (ZPE Ceará), associado ao Complexo Industrial e Portuário do Pecém.

O projeto foi apresentado pelo governo estadual como parte da estratégia de posicionar o Ceará como hub de infraestrutura digital e pode mobilizar investimentos bilionários nas próximas fases de desenvolvimento, dependendo da adesão de operadores internacionais.

Nesse contexto, também foram divulgadas discussões envolvendo a ByteDance, empresa controladora do TikTok, sobre a possibilidade de instalação de infraestrutura de data centers no estado. O projeto, ainda em fase de estruturação, tem sido citado como exemplo do interesse crescente de grandes empresas de tecnologia em desenvolver infraestrutura digital associada à disponibilidade de energia renovável e conectividade internacional na região.

Perspectivas

O crescimento da economia digital cria uma oportunidade histórica para regiões capazes de combinar conectividade, energia e ambiente institucional favorável.

O Ceará reúne características que o colocam em posição relevante nessa discussão: localização estratégica no Atlântico, presença de cabos submarinos internacionais, expansão de energia renovável e iniciativas voltadas à atração de investimentos em infraestrutura tecnológica.

Ao mesmo tempo, o desenvolvimento de um ecossistema robusto de data centers exige planejamento de longo prazo, coordenação regulatória e investimentos significativos em infraestrutura energética e digital.

O debate no Fórum Econômico Brasil–Canadá

A expansão de data centers e os desafios associados à infraestrutura energética necessária para sustentá-los serão temas centrais do 4º Fórum Econômico Brasil–Canadá, que acontecerá em 15 de abril.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da CCBC sendo de inteira responsabilidade do autor que assina este conteúdo.

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