Por Escritório do Québec em São Paulo*
“Com o Canadá e todos os nossos parceiros internacionais, é possível construir um futuro mais positivo, mesmo em um mundo cada vez mais incerto.”[i]
Consciente dos riscos associados ao contexto mundial instável, marcado por mudanças geopolíticas, econômicas e tecnológicas, o governo do Québec lança uma nova política econômica para responder de forma rápida e estruturada aos desafios atuais.
A nova política tarifária dos Estados Unidos evidencia um problema crescente: a dependência da economia quebequense do mercado estadunidense, em exportação e importação. Essa relação gera efeitos perversos sobre investimentos, modernização de empresas e funcionamento das cadeias de suprimentos, com impactos que ultrapassam os setores diretamente afetados pelos aumentos tarifários. Diante disso, o governo definiu quatro prioridades econômicas:
- Aumentar a produção de energia renovável, dobrando a oferta até 2050;
- Aproveitar oportunidades estratégicas em defesa, segurança e minerais críticos;
- Apoiar pequenas e médias empresas e desenvolver novos mercados;
- Tornar o Estado mais flexível, eficiente e produtivo.
Além de reconhecer os desafios, o Québec aposta em seus pontos fortes. Devido à sua geografia, a província é um ponto de trânsito que conecta o Canadá à Europa e ao restante do mundo, com uma rede de 20 portos comerciais, fundamentais em seu desenvolvimento econômico. Soma‑se a isso uma rede internacional construída ao longo de 60 anos, estabelecendo confiança em 34 locais estratégicos, como São Paulo, Cidade do México e Bogotá. Esses ativos reforçam uma economia robusta, com destaque para setores de ponta como aeroespacial, energia, ciências da vida, tecnologias limpas e inteligência artificial.
A energia é a espinha dorsal de qualquer economia, mas o Québec tem uma vantagem competitiva: a maior parte da eletricidade produzida no Québec é renovável, representando metade do suprimento energético do território. Seu principal trunfo é a Hydro‑Québec, maior produtora e distribuidora de eletricidade do país, com enorme capacidade de produção e armazenamento.
Ao potencial hidrelétrico, é preciso somar o potencial eólico, solar e o de outras fontes renováveis (biomassa, bionergia de resíduos, etc). Até 2035, o Québec planeja diversificar as fontes de produção de eletricidade através de:
- ampliação de barragens e construção da primeira usina de reserva bombeada;
- parques eólicos de grande escala;
- programas de eficiência e sobriedade energética;
- expansão da energia solar com pequenos parques e instalação de painéis em mais de 125 mil clientes.
O desenvolvimento energético representa uma oportunidade de criar prosperidade sustentável, por meio de novas cadeias produtivas e da consolidação das já existentes. O Québec investirá, até 2050, em uma expansão elétrica sem precedentes.
Os minerais críticos e estratégicos (MCS) são outro pilar da política econômica. Essenciais à transição tecnológica mundial, eles colocam o Québec em uma posição vantajosa, graças à abundância de recursos, estabilidade institucional e fortalecimento das atividades de transformação. Os MCS são um recurso estratégico que pode servir de alavanca nas negociações comerciais, bem como no desenvolvimento das infraestruturas da província (rodovias, ferrovias, portos).
A diversificação dos mercados é uma necessidade vital e imprescindível para a ascensão de pequenas e médias empresas. A já mencionada rede paradiplomática do Québec, vasta e tradicional, é mobilizada para fomentar novos mercados e parcerias. Assim, mercados pujantes como o Brasil são de extremo interesse em áreas como transporte e logística, mineração e tecnologias agrícolas, sem esquecer a expertise brasileira em produção hidrelétrica.
Além de fortalecer os acordos existentes, o governo do Québec trabalhará, principalmente, por meio de :
- novos campeões econômicos quebequenses, estimulando o desenvolvimento de cadeias de suprimentos locais em benefício das pequenas e médias empresas do Québec;
- defesa do acesso do Québec ao mercado estadunidense e a renegociação do Acordo Canadá–Estados Unidos–México;
- reforço de infraestruturas estratégicas, especialmente no transporte, tanto para apoiar as atividades de produção, transformação e exportação quanto para garantir a soberania digital.
Paralelamente, o governo busca uma redução expressiva da burocracia, a fim de simplificar o ambiente de negócios e acelerar a realização de grandes projetos estratégicos. Reconhecendo que essa burocracia compromete a produtividade, o governo pretende criar processos de aprovação mais céleres para projetos estruturantes, sem comprometer o rigor das análises.
O governo do Québec entende que vivemos numa nova era mundial, mais volátil e incerta. A recém-divulgada visão econômica surge dessa forma para ajudar a província a prosperar nesse cenário de incertezas, ser ágil, valorizar seus recursos e aproveitar as oportunidades na economia de amanhã.
[i] “Le Pouvoir québécois”, 2025, – Ministério do Conselho Executivo do Québec
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da CCBC sendo de inteira responsabilidade do autor que assina este conteúdo.

