Artigo: Quando a política externa vira política interna: o tarifaço de Trump e seus múltiplos efeitos no Brasil

Por Igor Andrade e Fernanda Arbex, sócios das consultorias FPArbex e Innova Assuntos Públicos

O anúncio do tarifaço por parte de Donald Trump ao Brasil evidenciou, mais uma vez, as fraturas entre o Palácio do Planalto e o Ministério das Relações Exteriores. Enquanto o embaixador Celso Amorim, assessor especial do presidente Lula, direciona a política externa para uma abordagem de cunho ideológico, com ênfase nas alianças Sul-Sul, o chanceler Mauro Vieira e o corpo diplomático empenham-se em manter uma postura pragmática voltada à negociação técnica e contínua. Tal desalinhamento comprometeu a capacidade de reação do governo: o Brasil não apenas deixou de conter ou prever a adoção da medida, como também não conseguiu negociar exceções antes que o anúncio ganhasse força em Washington.

Nos bastidores, integrantes do governo veem, no entanto, uma oportunidade estratégica. A maioria da população não acompanha tecnicamente quadros tarifários ou variações de alíquotas, mas muitos assimilam, e compartilham nas redes sociais, a narrativa de um país injustiçado por potências estrangeiras. O Palácio do Planalto já testou esse discurso em embates recentes com o Congresso Nacional e observou discreta elevação nos índices de aprovação presidencial. Neste novo episódio, Trump emerge como o “agressor externo” ideal, enquanto o ex-presidente Jair Bolsonaro, seu aliado declarado, é visto como coadjuvante. As pesquisas de opinião divulgadas após o anúncio indicam que a postura de enfrentamento adotada pelo governo brasileiro contribuiu para a continuidade da tendência de alta na popularidade do presidente Lula.

O calendário eleitoral, contudo, impõe cautela. No Canadá, medidas similares adotadas por Trump, às vésperas da votação, influenciaram o ambiente eleitoral. No caso brasileiro, as eleições presidenciais ocorrerão apenas em outubro de 2026, e choques políticos dessa natureza costumam ter efeitos eleitorais apenas quando impactam diretamente a população em momentos próximos ao pleito. Ademais, é característico do atual estilo de Trump adotar medidas extremas como forma de barganha, frequentemente recuando após provocar negociações. Sua volatilidade permanece uma constante. Caso ele volte atrás em poucas semanas, o episódio tende a perder tração antes mesmo de sair da editoria de política internacional.

Para Jair Bolsonaro, o movimento norte-americano representa uma faca de dois gumes. Seu eleitorado mais fiel celebra qualquer gesto de afinidade vindo de Trump – público já engajado. Entre eleitores mais moderados, porém, cresce a percepção de que o ex-presidente “trouxe problema” ao país. As manifestações comemorativas de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nas redes sociais tendem a intensificar esse sentimento. Caso as tarifas se prolonguem e atinjam exportações centrais como café, carne bovina e suco de laranja, o impacto recairá justamente sobre o agronegócio — base política e financeira do bolsonarismo. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) já reagiu com preocupação, cobrando celeridade do governo federal na proteção ao setor e buscando interlocução direta com autoridades norte-americanas para mitigar os efeitos da medida.

Enquanto isso, Brasília reagiu de forma multifacetada: ao mesmo tempo em que adotou uma retórica incisiva, com entrevistas e pronunciamentos em defesa da soberania nacional, o presidente Lula avalia recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) – alternativa juridicamente sólida, embora de resultados lentos – e busca reestabelecer o diálogo direto com Washington. Internamente, delegou ao vice-presidente Geraldo Alckmin a articulação com o setor privado afetado, com vistas a coordenar eventuais medidas de retaliação econômica que possam pressionar os Estados Unidos. Até o momento, não há sinalização de entendimento entre os dois países, e as tarifas passam a vigorar a partir de 1º de agosto.

O que transformará o tarifaço de combustível retórico em bomba econômica são três variáveis: sua duração, o tamanho da conta para os grandes exportadores e a capacidade de cada lado de convencer o eleitor de que o outro deve pagá-la. Se a sobretaxa persistir por meses, a queda de renda no campo e na indústria pode reconfigurar alianças rumo a 2026; se desaparecer em semanas, será apenas mais um capítulo barulhento – e passageiro – da política externa norte-americana. Até lá, a narrativa que o governo conseguir construir perante a opinião pública pode importar tanto quanto os impactos econômicos concretos das tarifas.

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