Brasil e Canadá ampliam relação comercial

Governos intensificam o diálogo enquanto a CCBC atua para fomentar negócios entre os países, na expectativa da assinatura do acordo com o Mercosul

Por Marcelo Picolo

O relacionamento entre Brasil e Canadá vive um momento de dupla sinalização. De um lado, os números do comércio bilateral batem recordes atrás de recordes. Do outro, fica a expectativa de que há ainda muito espaço a crescer, impulsionado pelo acordo de livre comércio entre o Canadá e o Mercosul, negociado desde 2018 e retomado com força em 2025 e neste ano.

As conversas estão intensas entre os países. Em julho, a chanceler canadense Anita Anand esteve em São Paulo para o 5º Diálogo de Parceria Estratégica Brasil-Canadá, encontro com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que celebrou os 85 anos de relações diplomáticas formais entre as nações, vínculo que remonta à primeira missão comercial canadense ao Brasil, em 1866.

Dessa recente visita saíram compromissos concretos: um aporte de US$ 125 milhões da FinDev Canada em projetos de infraestrutura sustentável e combustível de aviação sustentável no Brasil, um plano operacional do memorando sobre combate a incêndios florestais, um novo Acordo de Assistência Mútua Aduaneira e um memorando de cooperação técnica na área da saúde.

Os números das atuais relações comerciais, entre Brasil e Canadá, confirmam que há muito fôlego para crescer nos próximos meses. Segundo o Quick Trade Facts, estudo recente da balança comercial feito pela Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC), referente ao segundo trimestre de 2026, as exportações brasileiras ao Canadá cresceram 8% na comparação anual, somando US$ 3,67 bilhões, enquanto as importações brasileiras de produtos canadenses avançaram 31%. Ou seja, foram para US$ 1,8 bilhão.

O saldo comercial permaneceu positivo para o Brasil, em US$ 1,88 bilhão, e a corrente de comércio entre os dois países cresceu 15% no período. A valorização do real também favoreceu o intercâmbio: a moeda brasileira fechou o semestre cotada a R$ 5,13 por dólar canadense, patamar mais forte que no mesmo período de 2025.

Setores em foco: mineração, agro, educação e tecnologia

A mineração segue como o motor mais evidente da relação comercial. O ouro bruto (bulhão dourado) respondeu sozinho por mais de 56% de tudo o que o Brasil exportou ao Canadá no segundo trimestre, com salto de 52% em valor sobre 2025, reflexo direto da busca global por ativos considerados mais seguros em meio à instabilidade internacional. Mas o capítulo mais promissor está só começando: o das terras raras e minerais críticos.

O Brasil detém a segunda maior reserva mundial desses elementos, cerca de 21 milhões de toneladas, ou 23% do total global, segundo o Instituto Brasileiro de Mineração. Por conta deste cenário, empresas canadenses já disputam espaço nesse mercado nascente ao lado de grupos australianos e britânicos, com projetos como o da mineradora Resouro, que busca recursos para avançar um empreendimento de US$ 160 milhões no País. No fluxo já consolidado, o Canadá também é destino relevante do ferronióbio e dos minérios de níquel brasileiros.

O agronegócio ilustra bem a lógica de complementaridade que marca a relação: o Brasil vende alimentos e o Canadá comercializa os insumos que sustentam essa produção.

Segundo projeções de especialistas em relações internacionais, um eventual acordo Mercosul-Canadá poderia abrir um mercado adicional de mais de US$ 1 bilhão para o agro brasileiro, ampliando o acesso a um bloco de dezenas de milhões de consumidores com alto poder de compra, com destaque para proteínas animais, desde que cumpridos os requisitos sanitários canadenses. Do lado das importações, os fertilizantes – sobretudo o cloreto de potássio – respondem por mais da metade de tudo que o Brasil compra do Canadá: 52,3% da pauta no segundo trimestre de 2026, com alta de 48% em valor sobre o ano anterior. O Canadá é o segundo maior exportador mundial de fertilizantes, e o Brasil, maior importador global do insumo.

A cooperação em educação também ganha corpo. Bolsas como o programa ELAP (sigla em inglês para Emerging Leaders in the Americas Program), seguem financiando o intercâmbio de estudantes brasileiros em universidades do Canadá, em áreas como engenharia, biologia, direito, relações internacionais e agronomia.

No plano institucional, a Universidade Federal do Pará (UFPA) firmou acordo de cooperação com a Université du Québec à Trois-Rivières para um programa de intercâmbio acadêmico, e o Instituto Atlântico firmou parcerias com a International Business University e o Northern Alberta Institute of Technology (NAIT) voltadas à formação de talentos e ao desenvolvimento conjunto de tecnologias emergentes.

Do lado tecnológico, o Canadá é hoje um dos principais fornecedores de equipamentos médicos, softwares e soluções de energia limpa para o mercado brasileiro. O segundo trimestre de 2026 confirma essa vocação, com importações de turborreatores e turbinas, helicópteros, tratores e implementos agrícolas.

A cooperação financeira reforça essa frente: somente em julho, a FinDev Canada anunciou US$ 58 milhões em crédito para uma biorrefinaria de combustível sustentável de aviação na Bahia e um pacote de US$ 50 milhões para modernizar a distribuição de energia no Maranhão. Um levantamento do Conselho de Integração Nordeste com a ApexBrasil também mapeou 534 oportunidades de negócio no Canadá para exportadores brasileiros de máquinas, equipamentos de transporte e produtos alimentícios. Mesmo com a queda de 17% nos investimentos diretos canadenses no Brasil em 2024, o país segue como o 13º maior investidor estrangeiro no Brasil, com destaque para os setores financeiro, de indústrias extrativas e imobiliário.

Acordo Mercosul-Canadá: expectativa e cautela

É nesse cenário de comércio já pujante que caminha a negociação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e o Canadá. Depois de retomadas em 2025, em meio à ofensiva tarifária dos Estados Unidos, as tratativas ganharam ritmo em 2026. A 10ª Rodada Negociadora, realizada em maio em Toronto, levou cinco capítulos do texto – entre eles regras de origem e propriedade intelectual – à fase de encerramento das discussões.

O governo brasileiro estima que boa parte do acordo já esteja fechado, com meta declarada de concluir as negociações idealmente antes do fim de 2026, segundo a própria chanceler Anita Anand.

Os pontos mais sensíveis seguem sendo o cronograma de liberalização tarifária e as regras de origem – temas que tendem a esbarrar na resistência de setores como o agrícola canadense e nas dificuldades de coordenação entre os países do Mercosul, cujas economias caminham em ritmos e alianças comerciais distintos.

“Nós, por aqui, seguimos na expectativa de que o acordo avance cada vez mais”, disse Hilton Nascimento, presidente da Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC). “E que cubram acordos mútuos de cooperação em mineração, educação, tecnologia e agronegócio; há muitas oportunidades para estes setores”, complementou.

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