Por Tiago de Mattos, coordenador do Chapter Belo Horizonte da CCBC
Entre 24 e 27 de agosto de 2026, Belo Horizonte voltou a ser o centro da mineração latino-americana. A Expo & Congresso Brasileiro de Mineração (Exposibram 2026), promovida pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) no Expominas, marcou também os 50 anos da entidade e alcançou dimensão inédita: mais de 750 estandes, mais de 17 mil metros quadrados de área expositiva e público recorde, segundo o balanço oficial divulgado no encerramento. O evento confirmou que a mineração passou a ocupar o centro das discussões sobre transição energética, cadeias de suprimento e reindustrialização.
Para quem acompanha a relação entre Brasil e Canadá, a edição deste ano teve um significado especial. Em 2026, os dois países celebram 85 anos de relações diplomáticas, e a mineração figura entre os principais pilares dessa aproximação.
Os grandes temas da Exposibram 2026
A programação do Congresso Brasileiro de Mineração girou em torno de minerais críticos e estratégicos, geopolítica dos recursos minerais, descarbonização, inovação, inteligência artificial e transformação digital, licenciamento e atração de investimentos. Na solenidade de abertura, o IBRAM destacou o avanço do marco legal dos minerais críticos, a publicação do Plano Nacional de Mineração 2050 e as propostas para ampliar o financiamento do setor, inclusive mecanismos que permitam listagens em bolsa no modelo de mineração júnior, a exemplo do Canadá e da Austrália.
Os debates reforçaram que a legitimidade da mineração depende de segurança operacional, relacionamento genuíno com territórios e comunidades e contribuição socioambiental líquida positiva. Um painel sobre a visão estratégica dos países para minerais críticos reuniu representantes de Canadá, Austrália, Estados Unidos, França e Reino Unido, entre eles a então Cônsul-Geral Interina do Canadá no Rio de Janeiro, Helen Belgrave, evidenciando o interesse internacional pelo potencial brasileiro.
A forte presença canadense
O Canadá esteve entre os protagonistas do evento. O Serviço de Delegados Comerciais do Canadá (Trade Commissioner Service) organizou uma programação dedicada a apresentar soluções canadenses em tecnologia limpa, inteligência artificial, automação e inovação, com rodadas de negócios, Pavilhão do Canadá e visita ao centro do SENAI-CIT voltado a ímãs e terras raras. Na abertura da semana, em 24 de agosto, a FIEMG recebeu o Canada-Brazil Mining Business Forum, realizado em parceria entre o Governo do Canadá e a província de Québec, que trouxe a Belo Horizonte uma delegação de 20 empresas quebequenses.
Na ocasião, a Cônsul-Geral do Canadá em São Paulo, Joanne Lemay, lembrou que o Canadá é o maior investidor estrangeiro no setor mineral brasileiro: mais de 40 companhias listadas na TSX e na TSX Venture Exchange operam ou investem no Brasil, com mais de 16 bilhões de dólares canadenses em ativos de mineração. A presença empresarial também foi visível entre os patrocinadores da feira, como Ero Copper, Lundin Mining e Kinross — e o estande da Ero foi premiado como o melhor em sua categoria.
O Happy Hour da CCBC: diplomacia e negócios lado a lado
Em meio à intensa agenda da semana, a Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC) promoveu um Happy Hour que reuniu associados, executivos do setor mineral, investidores e autoridades. O encontro contou com a presença do Embaixador do Canadá no Brasil, Eric Walsh, recém-chegado ao país, de representantes do Consulado do Canadá e do Chapter Belo Horizonte da CCBC. Em ambiente informal, o encontro aproximou pessoas e aprofundou conversas iniciadas nos estandes.
A mensagem dialoga com as prioridades declaradas pelo próprio Embaixador. Em entrevista à News CCBC, Walsh afirmou que, se tivesse de destacar um setor, “mineração e minerais críticos provavelmente estariam no topo da lista”, apontando a construção de cadeias de suprimento mais resilientes e a colaboração com o Brasil na implementação de seu novo Plano Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos como frentes de cooperação.
Oportunidades de cooperação: inovação, sustentabilidade, minerais críticos e investimentos
O ambiente regulatório brasileiro mudou de forma relevante logo após o evento. Em 16 de setembro de 2026, foi sancionada a Lei nº 15.506/2026, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE) e cria o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE). A lei prioriza a agregação de valor no país, autoriza o Fundo Garantidor da Atividade Mineral, com participação da União de até R$ 2 bilhões, e prevê créditos fiscais de até R$ 1 bilhão por ano entre 2030 e 2034 para beneficiamento, transformação e mineração urbana. O CIMCE também homologará determinadas operações, como mudanças de controle e aquisições relevantes por estrangeiros, ponto de atenção para investidores canadenses.
Nesse contexto, a complementaridade entre os dois países é evidente. O Canadá oferece experiência consolidada em financiamento de mineração via mercado de capitais, tecnologia, governança e relacionamento com povos indígenas — o país soma cerca de 500 acordos de benefícios firmados entre empresas e comunidades indígenas, segundo o Natural Resources Canada. Em setembro, a Agência Nacional de Mineração, o NRCan e a Embaixada do Canadá reuniram-se em Brasília para discutir cooperação em minerais críticos, inovação, capacitação técnica e boas práticas regulatórias, enquanto se aguarda a formalização de um Memorando de Entendimento entre o Ministério de Minas e Energia e o governo canadense.
Próximos passos: rumo ao PDAC 2027
Os próximos meses serão decisivos para a instalação do CIMCE, a definição da lista de minerais críticos e estratégicos e a regulamentação dos incentivos. Para empresas e investidores dos dois países, será o momento de transformar o interesse demonstrado em Belo Horizonte em projetos concretos.
O próximo grande encontro dessa agenda será o PDAC 2027, a principal convenção mundial de exploração mineral, que ocorrerá de 7 a 10 de março de 2027, em Toronto. Na edição de 2026, o PDAC reuniu mais de 32 mil participantes de 141 países, e o Brasil esteve entre as maiores delegações estrangeiras. Uma presença brasileira articulada em Toronto será oportunidade valiosa para apresentar o novo marco regulatório e os projetos nacionais ao mercado de capitais canadense. Da Exposibram ao PDAC, a mensagem é clara: Brasil e Canadá têm recursos, conhecimento e instituições para construir juntos uma mineração mais inovadora, sustentável e competitiva. Cabe agora às comunidades de negócios, e a fóruns como a CCBC, manter essa ponte ativa.
*Este texto não necessariamente reflete a opinião da CCBC e é de inteira responsabilidade do autor deste conteúdo.

