E se a mineração e o setor elétrico tivessem a mesma solução para problemas diferentes?

Por Artur Bertone, gerente de Novos Negócios na HIDROBR

Em 1695 o mundo era significativamente diferente de hoje, nessa data em especial o bandeirante Manuel Borba Gato, nas suas andanças pela Terra Brasilis, encontra ouro no Rio das Velhas, marcando o início da corrida do ouro brasileira, na região de Minas Gerais. 

Pouco tempo depois em 1698 seria fundada a Vila Rica, hoje chamada de Ouro Preto, que se elevaria em 1720 a capital do estado de Minas Gerais e assim permaneceria até a fundação de Belo Horizonte em 1897. 

Coincidência ou não, poucos anos antes em 1889 entrou em operação a primeira usina hidrelétrica da América Latina, a Marmelos Zero, no rio Paraibuna em Juiz de Fora (MG), criada para abastecer uma indústria têxtil. Um fato interessante ocorrido a época é que o industrial Bernardo Mascarenhas sabendo que a usina produziria mais energia do que a sua fábrica demandava fez uma proposta para a municipalidade, para que ele pudesse direcionar a energia para a iluminação pública. Tal ação gerou uma inquietação na comunidade, com a divisão entre aqueles que apoiavam a iniciativa, e outros que eram radicalmente contra, visto que, a luz advinda daqueles cabos só poderiam ter vindo do inferno. Talvez a primeira polarização da sociedade juiz-forense, quiçá mineira e que foi solucionada a partir de uma explicação técnica feita por um engenheiro que assim como o ditado, conseguiu provar que não se tratava da magia e sim de tecnologia. 

Nesse mesmo período é realizada a primeira concessão pública do recém-criado setor elétrico brasileiro, para Thomas Edison, o inventor da lâmpada incandescente para realizar a iluminação pública da cidade do Rio de Janeiro. 

Os anos se passaram e os dois setores, elétrico e mineral, se desenvolveram contribuindo cada qual com o seu quinhão para o desenvolvimento da economia nacional, que viria a se tornar em seus tempos áureos a quinta economia do mundo. 

No que se refere ao setor elétrico, o Brasil possui hoje um dos maiores e mais robustos sistemas interligados de energia elétrica, operando mais de 176 mil km de linhas de transmissão, responsáveis por escoar cerca de 253.061MW de energia gerados por diferentes fontes de energia, sendo 90% do grid oriundo de fontes renováveis de energia, como hidráulica (43%), eólica (14%), solar (8%) e biomassa (6%) e cerca de 20% decorrentes de geração distribuída também com base em renováveis. 

Em relação ao setor mineral, em 2025 o faturamento atingiu a expressiva marca de 298,8 bilhões de reais, um aumento de 10,3% frente ao ano anterior. A participação do minério de ferro continua predominante com 53%, porém destaca-se que o ouro e o cobre cresceram 65% e 50% em termos de faturamento, mostrando a força da diversificação, que também se reflete na participação regional, tendo Minas Gerais e Pará como os principais estados mineradores com 40% e 35% respectivamente, porém surpreende o crescimento de 33% na participação do estado da Bahia e 28% do Mato Grosso e Goiás, as novas fronteiras minerárias do Brasil.  

Os dois setores de extrema relevância para o Brasil, possuem conexões e laços bem estreitos. No desenvolvimento do setor elétrico brasileiro, muitas usinas foram criadas para abastecer empreendimentos minerários, que devido a natureza das suas operações exigiam um suprimento constante e estável de energia. Tal pioneirismo foi fundamental para garantir o desenvolvimento do setor elétrico brasileiro, permitindo inclusive que nos dias atuais, as empresas de mineração estejam cada vez mais vendendo as suas participações ou unidades de negócio de energia, em decorrência da confiança no robusto sistema elétrico nacional. 

No entanto, na complexidade da modernidade, os dois setores hoje lidam com desafios completamente distintos, mas que podem ter uma solução conjunta. 

A mineração após décadas de extração e abertura de novas frentes de extração mineral, agora precisa lidar com os desafios associados ao fechamento das minas. Um processo que não é trivial, visto que uma operação desse porte, desenvolve ao longo dos anos relações intricadas com o território, a comunidade e a economia das regiões de extração. 

Os desafios do fechamento não são exclusivamente técnicos e ambientais, e nem se concentram apenas no descomissionamento das estruturas e das instalações. Hoje mais do que nunca é necessário olhar para a região que hospedou por décadas uma operação de extração mineral, e compreender os laços que foram criados a partir de impactos diretos como a geração de empregos diretos, arrecadação de impostos, contratação de serviços e etc. Mas também é necessário o olhar da componente indireta, ou seja, falar dos modos de vida, da ambiência e de como aquela comunidade se adaptou e se transformou ao longo do tempo, influenciada de sobremaneira por esse empreendimento. 

Sendo assim, diante desse contexto, qual a melhor forma de realizarmos um processo de fechamento de mina? Como conseguir abranger não somente as dinâmicas produtivas e técnicas de descomissionamento, mas também as questões socioeconômicas e culturais? Essa resposta é um dos grandes desafios que se apresenta a indústria da mineração nos dias atuais. 

Do outro lado, o setor elétrico brasileiro vive talvez os seus dias mais incertos, a entrada expressiva das fontes solares e eólicas na matriz energética brasileira, aliada ao crescimento expressivo da geração distribuída forçam o sistema a lidar com incertezas e desafios nunca antes vistos. A geração distribuída, ou seja, a capacidade de cada cidadão poder gerar a sua própria energia, seja no telhado da sua casa, ou em uma propriedade específica, é ao mesmo tempo uma ferramenta incrível para descentralizar a necessidade de investimento em geração de energia no Brasil, e uma imensa dor de cabeça para o ONS, que é responsável por operar o sistema elétrico nacional, e portanto tem como responsabilidade garantir a segurança energética, ou seja que ao ligar seu equipamento na tomada, tenha energia esperando por ele. Essa dor de cabeça é decorrente do fato de que diferente da hidráulica e das fontes baseadas em combustíveis, como carvão, biomassa e etc, na eólica e solar você não tem a capacidade de controlar a geração de energia, porque o principal combustível, o vento ou o sol, não está no painel de controle do gerador, e portanto para quem precisa coordenar a distribuição de energia no território, lidar com uma fonte intermitente é mais do que uma dor de cabeça, é a enxaqueca completa, com salvas e áureas. 

As consequências desses dois desafios já são sentidas em números, para o setor elétrico, 20% do potencial de geração de energia solar e eólica foi cortada em 2025, o que significa que 4.021MW em média foram perdidos, acarretando em um prejuízo estimado em 6,5 bilhões de reais. Tal prejuízo se da pelo fato de que a energia que sobra na rede não pode ser armazenada, e portanto é preciso cortar a geração para garantir a estabilidade do sistema. No sistema elétrico, não é preciso apenas aumentar a geração de energia, mas sim que ela seja gerada no tempo e no momento certo. 

Para o setor mineral, segundo dados do Instituto Escolhas, existem no Brasil cerca de 3.943 processos minerários com indicativos de abandono, ou seja, lavras que foram abandonadas e não terão o devido processo de fechamento. Além das lavras abandonadas ainda existem diversas minas que estão em processo de fechamento e estão enfrentando inúmeras dificuldades para avançar, visto a complexidade que já discutimos. 

Mas e se os dois desafios pudessem compartilhar uma solução única? 

Antes de mais nada é importante aterrar os pés no chão, e relembrar que não existem respostas simples para problemas complexos. Como diria Carl Sagan, afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias, e aqui não estamos propondo afirmações extraordinárias, mas sim uma alternativa para ser explorada e estudada. 

Uma das alternativas que se apresentam para a volatilidade da energia solar e eólica, está justamente na construção das usinas hidrelétricas reversíveis, ou seja, trocando em miúdos seria uma usina com dois reservatórios em alturas diferentes. Nesse modelo quando existe excesso de energia no sistema, é realizado o consumo desse excedente fazendo o bombeamento da água do reservatório inferior para o superior. Dessa forma, o reservatório é recarregado deixando-o sempre cheio para os períodos em que não temos excedente de energia na rede. 

As cavas de mineração encerradas se apresentam como uma excelente oportunidade para serem convertidas em usinas reversíveis, principalmente quando falamos de grandes empreendimentos minerários que operaram durante muitos anos, que possuem várias cavas em diferentes profundidades e localidades. A exploração desses ativos minerários para geração de energia, teria a possibilidade de atacar os dois desafios, mostrando uma potencialidade de continuidade de uso para aquele empreendimento que seria encerrado, e também reduzindo o impacto dos cortes de energia, os temidos e malfadados curtailments. 

A execução e operação dessa solução não é simples, demanda muitos estudos de viabilidade técnica e econômica, pois além de toda a estrutura operacional para a conversão das cavas em uma usina, também é necessário avaliar o fator locacional, ou seja, existe energia excedente na rede? Existe disponibilidade de rede para escoamento e aproveitamento? Existe viabilidade técnica das estruturas para recebimento de um reservatório? 

As dúvidas e a complexidade não são pequenas, se equivalem ao porte do problema que elas buscam solucionar. Mas sem dúvida é um tema que merece ser tratado com atenção, visto que, as incertezas do futuro demandam ações concretas, assertivas e arrojadas.

*Este texto não necessariamente reflete a opinião da CCBC e é de inteira responsabilidade do autor deste conteúdo.

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