Incertezas globais impulsionam recordes na balança entre Brasil e Canadá no semestre

Busca por ativos seguros elevou as exportações brasileiras de ouro, enquanto mudanças nas cadeias globais de fertilizantes ampliaram as importações canadenses

Por Pedro Augusto

A instabilidade da economia global continua redesenhando o comércio internacional e tem fortalecido o intercâmbio entre Brasil e Canadá. Em meio à maior procura por ouro como ativo de proteção contra a deterioração dos cenários externos, as exportações brasileiras totais para o mercado canadense atingiram US$ 3,67 bilhões no primeiro semestre de 2026, o maior valor já registrado para o período, impulsionadas justamente pelo salto de 52% no bulhão dourado (ouro bruto). Por outro lado, a reorganização das cadeias globais de fertilizantes e os entraves de rotas logísticas levaram ao crescimento das importações vindas do Canadá, que alcançaram US$ 1,80 bilhão no período.

A corrente de comércio entre os dois países somou US$ 5,47 bilhões entre janeiro e junho, alta de 15% em relação ao mesmo período do ano passado. As exportações totais brasileiras cresceram 8%, enquanto as importações avançaram 31%, mantendo saldo comercial positivo de US$ 1,88 bilhão para o Brasil. Os dados são do Quick Trade Facts (QTF), levantamento da Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC).

Demanda por ouro mantém exportações em nível recorde

O cenário internacional de maior incerteza econômica e geopolítica continuou favorecendo ativos considerados mais seguros ao longo do primeiro semestre de 2026. Em meio à volatilidade dos mercados, o ouro manteve trajetória de valorização, estimulando a demanda global pelo metal e beneficiando países produtores, como o Brasil. O bulhão dourado (ouro bruto), que avançou 52% em relação ao mesmo período de 2025, respondeu por mais da metade das vendas brasileiras ao mercado canadense.

Embora produtos tradicionais da pauta exportadora, como alumina calcinada, café verde e açúcar, tenham apresentado desempenho inferior ao observado no ano passado, o avanço das exportações de ouro, carne bovina, máquinas carregadoras, querosene de aviação e equipamentos industriais compensou essas retrações e sustentou o resultado recorde.

“O cenário internacional continua evidenciando as enormes possibilidades comerciais entre Brasil e Canadá. A demanda por ouro, ativo sempre procurado em cenários desafiadores, cercados de incertezas, como o atual, é um exemplo desse potencial”, afirma Hilton Nascimento, diretor-presidente da CCBC. “Ao mesmo tempo, vemos uma pauta que permanece diversificada, com setores tradicionais e industriais contribuindo para esse resultado recorde”, completa.

Além da mineração, o desempenho dos embarques brasileiros refletiu ainda a força de setores como agronegócio, alimentos e bebidas e indústria de transformação, com destaque para máquinas, aeronaves e equipamentos industriais.

Canadá amplia participação nas importações brasileiras

As importações brasileiras de produtos canadenses também evidenciaram as complexidades do cenário internacional. A reorganização das cadeias globais de suprimento de fertilizantes, intensificada pelas tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos e Irã, e pelos impactos sobre importantes rotas logísticas, levou compradores internacionais a diversificarem fornecedores. Nesse contexto, o Canadá ampliou seu protagonismo por contar com uma produção mais estável e menos dependente de insumos provenientes do Oriente Médio.

Como resultado, os fertilizantes permaneceram como o principal item da pauta importadora, representando mais da metade do valor adquirido pelo Brasil, com alta de 48% nas compras de cloreto de potássio.

Além dos fertilizantes, destacaram-se as importações de produtos da indústria química e farmacêutica, máquinas e equipamentos industriais, além de itens do setor aeronáutico.

“O crescimento das importações mostra como Brasil e Canadá vêm fortalecendo uma relação comercial complementar. Em um cenário de reconfiguração das cadeias globais de suprimentos, o Canadá amplia sua relevância como fornecedor de insumos estratégicos para a economia brasileira”, completa Nascimento.

Acesse dados completos e análises no estudo da CCBC: Quick Trade Facts.

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