Por Fernanda Arbex e Igor Andrade, Sócios da Innova Assuntos Públicos*
As eleições de 2026 trarão a renovação de dois terços do Senado Federal, um ciclo que se repete a cada oito anos. Nesse modelo, estarão em disputa 54 das 81 cadeiras, e cada eleitor terá direito a dois votos para o Senado em seu estado. Essa regra, prevista no desenho institucional da Casa, altera a dinâmica eleitoral em relação aos pleitos em que
apenas uma vaga é escolhida, exigindo dos partidos e coalizões uma engenharia mais cuidadosa na montagem de chapas.
A maior parte dos senadores com mandato se encerrando deve buscar a reeleição, enquanto outros avaliam disputar governos estaduais ou até mesmo a Presidência da República, caso do senador Flávio Bolsonaro (PL/RJ). O movimento é acompanhado de intensa reorganização partidária, dado que o Senado exerce papel central no arranjo institucional brasileiro: além de atuar como Casa revisora da Câmara, é responsável por sabatinar e aprovar indicações para o Supremo Tribunal Federal, agências reguladoras e demais autoridades, além de deter competência para processar e julgar ministros do STF em casos de impeachment.
Para o governo federal, a eleição para o Senado é considerada prioritária. Em caso de reeleição presidencial, o entendimento no Palácio do Planalto é de que a governabilidade a partir de 2027 dependerá diretamente da composição da Casa. Um Senado mais fragmentado ou majoritariamente oposicionista pode impor custos elevados à agenda
legislativa e às indicações estratégicas do Executivo.
Do lado da oposição, o objetivo também é claro: ampliar presença na Casa para fortalecer uma agenda de maior controle institucional, especialmente sobre o Supremo Tribunal Federal. Como o Senado vota as indicações para a Corte e pode dar início a processos contra seus ministros, a disputa pelas cadeiras assume contornos que vão além da tradicional disputa legislativa.
Nesse contexto, o ex-presidente Jair Bolsonaro iniciou uma estratégia de construção de chapas estaduais para o Senado. Em estados governados por lideranças de centro-direita, tem buscado acordos segundo os quais indicaria um dos nomes da chapa, cabendo ao governador indicar o segundo candidato. A lógica é maximizar a presença de aliados diretos em uma eleição que oferece duas vagas por unidade da Federação.
A estratégia, contudo, já enfrenta tensões. Em estados como Santa Catarina e o Distrito Federal, nomes identificados com a direita, mas fora do PL, que tinham candidaturas previamente consolidadas, passaram a enfrentar dificuldades diante da imposição de dois candidatos alinhados ao ex-presidente. O risco, nesses casos, é o surgimento de candidaturas avulsas ou dissidentes, o que pode fragmentar o eleitorado e alterar o resultado esperado pelas lideranças nacionais.
No campo governista, a estratégia tem seguido direção distinta. O foco está na construção de alianças com nomes de centro e centro-direita com viabilidade eleitoral, mesmo que isso implique reduzir o espaço de candidaturas mais ideologicamente alinhadas à esquerda, mas com menor competitividade. O racional é pragmático: evitar que o Senado seja dominado por parlamentares refratários a qualquer tipo de negociação com o Executivo. A prioridade é apoiar candidatos que, embora independentes, mantenham canais institucionais abertos ao diálogo.
A renovação de dois terços da Casa adiciona ainda uma variável eleitoral relevante. Como o eleitor dispõe de dois votos, a formação das chapas exige complementariedade e convergência ideológica mínimas entre os candidatos. Chapas desequilibradas ou com forte competição interna podem levar à dispersão de votos e abrir espaço para candidaturas de
centro que consigam captar o chamado “segundo voto” de eleitores tanto à esquerda quanto à direita.
Em síntese, a disputa pelo Senado em 2026 tende a ser tão estratégica quanto a própria eleição presidencial. Mais do que definir maiorias circunstanciais, o pleito poderá redesenhar o eixo de equilíbrio entre os Poderes e influenciar diretamente a estabilidade institucional e a capacidade de formulação de políticas públicas no próximo ciclo político. Para o setor produtivo e para investidores internacionais, compreender essa dinâmica será fundamental para antecipar cenários e avaliar riscos e oportunidades no médio prazo.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da CCBC sendo de inteira responsabilidade do autor que assina este conteúdo.

