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Artigo

Formas de inovar

Na edição anterior desta seção na revista Brasil-Canadá, a palavra-chave do tema sugerido era "sustentabilidade". Para esta edição, a editora sugeriu que abordasse outro tema: "inovação". Tivesse eu esperado, poderia ter combinado os dois assuntos em um único artigo: "inovação sustentável". Brincadeiras à parte, quando as empresas falam sobre inovação, me recordo do comentário de Mark Twain sobre o tempo: "todo mundo fala do tempo, mas ninguém faz nada a respeito". Entretanto, em inovação, isto pode ser diferente. Ao invés de repassar todos os conhecidos clichês, prefiro apresentar um exemplo concreto e bem-sucedido que vivenciei em minha própria carreira profissional.

Nos primeiros anos de atividades profissionais trabalhei na Dupont, que havia estruturado um programa de inovação muito interessante, rentável e bem-sucedido. A empresa era famosa por produtos de sucesso como o náilon, a Lycra®, a Kevlar® e outro, de resultados questionáveis, chamado  Corfam® (um couro sintético). Bom, três em quatro não é nada mal! As histórias por trás do náilon e da Kevlar® são resultado direto da singular cultura de inovação da Dupont. A empresa mantinha, tradicionalmente, dois níveis de pesquisa. Um era uma instalação do tipo  "o que der na telha", em que os cientistas desenvolviam "coisas". Não se tratava de "pesquisa dirigida", mas de uma verdadeira experiência. Quando algo era descoberto, passava a ser testado em outra instalação, pois a finalidade era descobrir aplicações para a descoberta. Foi o que aconteceu com o náilon.

Um pesquisador na instalação "o que der na telha" realizava experimentos com compostos de ácido acético e, quando saiu para almoçar, deixou uma proveta sobre a mesa com o líquido com o qual havia trabalhado. Ao retornar, percebeu que um resíduo havia se depositado no fundo da proveta.

Inovação envolve o hábito de olhar para velhos problemas de novas maneiras

Ele fez o resíduo passar por uma fieira, o que resultou em um cacho de fibras. O material foi enviado ao laboratório de aplicações, onde foi testado em várias situações. Os testes revelaram que as fibras tinham características semelhantes às da seda, porém eram mais resistentes. O náilon nascera! Tornou-se um substituto em muitas aplicações da seda, em produtos diversos, de meias femininas a paraquedas. É utilizado até hoje em cintos de segurança, para a proteção de ocupantes nos veículos. Não faço ideia de quão lucrativa foi a descoberta do náilon para a Dupont, mas tenho certeza de que mais do que cobriu os custos de pesquisa que levaram à sua descoberta.

A Kevlar® é outro caso interessante. O laboratório "o que der na telha" havia desenvolvido uma fibra de grafite que parecia bastante forte – tão ou mais forte que o aço. Esse material também foi enviado ao laboratório de aplicações para ser utilizado em ampla gama de testes de produtos. Conta-se que uma pessoa, que trabalhava no local, levou uma amostra do tecido para casa e, sem saber o que fazer com ela, foi ao porão, onde havia um estande de tiro para armas de pequeno calibre. Lá, atirou na amostra e descobriu que a Kevlar® era à prova de balas!

Inovação é mais do que meramente um resultado de pesquisa científica. Envolve o hábito de olhar para velhos problemas de novas maneiras.

O psiquiatra e consultor de empresas Edward de Bono chama isso de "pensar lateralmente". A recente evolução das classes C e D na pirâmide econômica no Brasil, para integrar a classe média emergente, vem desafiando empresas a desenvolverem novas abordagens mercadológicas e embalagens, além de outras iniciativas não convencionais para lidar com um mercado potencialmente enorme. Quem não gostaria de inovar para atingir um mercado que engloba mais de 50% do consumo em uma economia de 1,4 trilhão de dólares canadenses?

Tradução para português: BeKom Comunicação Internacional


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