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Entrevista

Diferencial competitivo

Presidente do Conselho de Ciência, Tecnologia e Inovação (STIC) do Canadá afirma que os investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), direcionados a áreas estratégicas para o país, podem oferecer vantagens econômicas e sociais no futuro.
Daniela Talamoni

Uma ideia inovadora, ao ponto de motivar estudos científicos para transformá-la em produtos ou serviços essenciais para o desenvolvimento de um país, pode partir de qualquer área. Mas o Governo do Canadá decidiu destinar recursos a quatro setores considerados estratégicos: ciência ambiental; recursos naturais e energia; ciências médicas e biológicas; e tecnologias da informação e comunicações. "O objetivo é investir em segmentos que possam oferecer, a longo prazo, vantagens econômicas e sociais", explica Howard Alper, presidente do Conselho de Ciência, Tecnologia e Inovação (STIC, na sigla em inglês) do Canadá. Em entrevista à revista Brasil-Canadá, Alper revela como o setor privado e as universidades contribuem para os avanços em ciência, tecnologia e inovação no país, além de ressaltar a importância da parceria entre Canadá e Brasil e os interesses em comum, como a produção da próxima geração de biocombustíveis. "Os trabalhos em cooperação podem reduzir os custos e os riscos envolvidos nesse tipo de investimento".

Brasil-Canadá – O Canadá decidiu destinar recursos a quatro áreas da ciência e tecnologia consideradas estratégicas. O que o país espera alcançar com esses investimentos?

Howard Alper – O governo está comprometido em criar vantagens competitivas ao país. Esse investimento estimula a produtividade, o crescimento e amplia os diferenciais de mercado. Os recursos direcionados às pesquisas também incentivarão as descobertas científicas, a inovação, o desenvolvimento de profissionais qualificados, a geração de empregos e até a criação de barreiras contra eventuais crises econômicas. O objetivo é investir nas áreas de ciência ambiental (água e redução de poluentes, por exemplo), recursos naturais e energia (adaptações às mudanças climáticas e biocombustíveis), ciências médicas e biológicas  (medicina regenerativa, neurociência e engenharia biomédica) e tecnologias da informação e comunicações (novas mídias e redes de banda larga), que poderão oferecer, a longo prazo, vantagens econômicas e sociais para o país.

BC – De onde vêm os recursos financeiros para colocar os projetos em prática?

HA – A maior parte do valor investido em pesquisa e desenvolvimento (54%) é creditada ao setor privado. Em 2008, o montante foi de cerca de US$ 16 bilhões, direcionado a pequenas, médias e grandes empresas. As universidades colaboram por meio do financiamento a redes de pesquisa e incentivo a parcerias nacionais e internacionais. O setor de educação superior representa 35% do total de recursos disponibilizados. Os governos municipais, estaduais e federais, por sua vez, estabelecem políticas de incentivo a instituições e laboratórios públicos para estimular ações em áreas de importância local, regional ou nacional. Quanto ao apoio governamental às empresas, grande parte do auxílio se deve aos créditos fiscais. Em minha opinião, são necessárias mais concessões diretas do governo. Do total de US$ 29,5 bilhões gastos  com ciência e tecnologia, em 2008, o Governo do Canadá financiou diretamente US$ 5,6 bilhões.

"O setor de educação superior representa 35% dos gastos com ciência e tecnologia"

BC – Qual é a importância da proximidade entre Canadá e Brasil para o desenvolvimento das áreas de ciência, tecnologia e inovação?

HA – Desde o acordo de cooperação em ciência, tecnologia e inovação, firmado em 2008, as relações entre os dois países se fortalecem e contribuem para reduzir os riscos e custos desse tipo de investimento. O Brasil tem muitos recursos naturais, é uma superpotência na América do Sul e líder mundial na agroindústria. Também está comprometido, com a ajuda de autoridades em posições-chave na sociedade, a utilizar o incentivo em inovação e tecnologia para manter o crescimento econômico e elevar a qualidade de vida dos cidadãos. Trabalhando juntos, Canadá e Brasil podem expandir as parcerias e oportunidades de financiamento para pesquisas, o acesso à tecnologia e o know how em várias áreas.

BC – Quais setores oferecem mais oportunidades para o sucesso dessa parceria?

HA – As áreas de colaboração conjunta, sob o acordo de cooperação Canadá-Brasil, ainda precisam ser oficialmente estabelecidas, mas é notável que os dois países têm interesses em comum. Ambos, por exemplo, mantêm indústrias de biodiesel emergentes e buscam desenvolver a próxima geração de biocombustíveis. O Brasil também tem experiência em produção e utilização de etanol como fonte de energia, o que alavancou sua indústria de cana-de-açúcar. O Canadá, por sua vez, domina a conversão de biomateriais celulósicos em etanol e a extração e produção de bioprodutos específicos. Por isso, na última reunião do Conselho da Organização Econômica e Comercial, em 2009, o Canadá se comprometeu a desenvolver uma proposta para definir as diretrizes de cooperação futura no setor de energia com o Brasil. Mas não é só. Vamos encorajar as empresas brasileiras a considerar, nessas negociações em parceria, investimentos em áreas em que o Canadá já é muito forte, como meio ambiente, ciências médicas e biológicas e tecnologias da informação e comunicações.

BC Como as universidades brasileiras e canadenses podem colaborar para desenvolver pesquisas estratégicas para os seus países?

HA – Há mais de 100 acordos vigentes entre as instituições do Canadá e do Brasil, muitos deles sem o apoio do governo, o que reflete as relações acadêmicas dinâmicas e cooperativas entre os países. O M­inistério de Relações Exteriores e Comércio Internacional do Canadá também oferece bolsas de estudo, para que estrangeiros, acadêmicos e futuros líderes de opinião possam usufruir da excelência acadêmica das universidades canadenses e criar parcerias duradouras. Por meio do Programa de Líderes Emergentes nas Américas (ELAP), o governo canadense concedeu 117 bolsas escolares para brasileiros no ano passado. Para o período entre 2010 e 2011, o número de benefícios deve ser semelhante. Além disso, Canadá e Brasil estão prestes a assinar um memorando de entendimento para colocar em prática projetos de pesquisa em setores-chave de cooperação mútua, como ciência e tecnologia, que deverão ser comandados por equipes mistas, com até cinco pesquisadores pós-graduados de cada país.


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