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Matéria de Capa

Criar, inovar, crescer

Apostar em grandes ideias, capazes de serem transformadas em benefícios concretos para os negócios e consumidores, tem sido a estratégia de companhias canadenses e brasileiras para driblar os períodos de crise e sobreviver no mercado
Paula Monteiro

Houve um tempo em que ter uma ideia brilhante era mania ou privilégio de artistas, inventores e cientistas. Hoje, a habilidade de pensar em algo, que nunca ninguém sequer imaginou, e transformar esse pensamento em um benefício concreto passou a ser quase obrigação de funcionários, empreendedores e da direção das empresas. Segundo pesquisa da consultoria de administração de pessoal Korn/Ferry, com 365 dirigentes de empresas da América Latina, mais da metade dos executivos (56%) já considera a criatividade uma capacidade essencial a um líder e até mais importante do que habilidades como tomar decisões difíceis ou motivar a equipe para atingir resultados.

No Brasil, o aumento dos valores repassados para a área de ciência e tecnologia mostra que a inovação tem sido adotada como estratégia de negócio. Estima-se que, nesse ano, esses investimentos cheguem a R$ 50 milhões. De acordo com Maximiliano Carlomagno, sócio da Innoscience, consultoria especializada em gestão da inovação, as companhias inovadoras garantem vantagens competitivas em relação aos concorrentes. "Algumas apresentam desempenho financeiro 50% superior em até dez anos", explica.

Guilherme Marco de Lima, vice-presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei), afirma, porém, que o país ainda inova pouco, se forem levados em conta seu potencial econômico, sua extensão geográfica e diversidade. Uma das explicações para o baixo desempenho pode estar na falta de experiência sobre as providências a serem tomadas entre o momento em que uma ideia surge e o caminho longo até sua transformação em soluções concretas e viáveis.

Carlomagno ensina que a empresa com potencial criativo precisa passar por cinco estágios até alcançar vantagens reais. Os dois primeiros passos envolvem a sensibilização quanto ao tema e um direcionamento dos esforços para inovar. "Depois, é preciso criar uma política de RH que sirva de estímulo aos colaboradores e às lideranças", diz. O quarto estágio é criar um processo de avaliação e investimentos em ideias. "Por fim, é necessário administrar a inovação como um processo inerente à cultura e às estratégias da companhia", explica o consultor.

Entre ter uma boa ideia e torná-la viável, há um longo caminho a se percorrer

O responsável pela novidade também precisa definir que público-alvo será beneficiado por sua ideia e, então, buscar o apoio de investidores que compartilhem dos mesmos interesses. Foi o que fez o engenheiro químico gaúcho Leonard Simon, de 38 anos. Em 2002, depois de especializar-se na produção de plástico, ele viajou ao Canadá para estudar na Universidade de Waterloo, na província de Ontário, e logo foi convidado a trabalhar como professor. Hoje, naturalizado canadense e com 15 pesquisas sob seu comando, Simon aparece na lista, divulgada anualmente pelo jornal Globe and Mail, dos 40 canadenses com menos de 40 anos que fizeram algo relevante para o país.

A proeza, que lhe rendeu o reconhecimento, foi desenvolver um plástico renovável, obtido da palha do trigo, capaz de atrair o interesse da Ford do Canadá, que já substitui peças de sua frota pelo produto. "Não é fácil viabilizar ideias, mas o segredo neste caso foi a estratégia de conectar as duas maiores economias da província, a agricultura e a indústria automotiva, para oferecer uma solução ecologicamente favorável, mas também tecnicamente e economicamente viável", explica.

Gustavo Zevallos, sócio responsável pela prática de inovação na América Latina do Monitor Group, companhia global com foco em consultoria estratégica, acredita que, para inovar no mercado global, um país precisa apostar em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). "As empresas devem atuar em parceria com instituições de ciência e tecnologia, fornecedores e clientes, para viabilizar ou acelerar alguns projetos e estudos", defende.

Parceria estratégica – Um acordo entre a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a Agência Canadense para Parcerias Internacionais em Ciência e Tecnologia (ISTPCanada) deve garantir que grandes projetos saiam do papel. Em agosto, foi anunciado um investimento conjunto de US$ 3,7 milhões que deverá financiar seis projetos de pesquisa, que envolvem 60 instituições e universidades brasileiras e canadenses, nos setores de fibras ópticas, plásticos biodegradáveis, tecnologias de satélite, geomática, telecomunicações sem fio e nanotecnologia. "Será a chance de pequenas empresas investirem em P&D", conta Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp.

A aproximação entre os dois países tem favorecido ainda a realização de eventos para a troca de experiências e know how tecnológico. Em março, uma delegação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) esteve em Ottawa para participar do workshop Canadá-Brasil sobre a Produção Eficiente de Etanol Celulósico. Para Esdras Sundfeld, chefe adjunto de P&D da Embrapa Agroenergia, a oportunidade pode favorecer uma cooperação bilateral, que trará muitas vantagens competitivas para empresas de ambos os países preocupadas com a produção sustentável de energia a partir de produtos agrícolas. "A visita a algumas instalações-piloto no Canadá nos permitiu verificar que há rotas tecnológicas de produção de etanol, que podem ser aplicadas no Brasil a curto e médio prazos", afirma Sundfeld.

Na prática, empresas brasileiras, que de alguma forma contam com a expertise científica e tecnológica canadense, têm oferecido vários benefícios para os negócios nacionais e o mercado consumidor brasileiro. Com o objetivo de se tornar a maior mineradora do mundo até 2014, a companhia Vale, por exemplo, criou no Brasil, no ano passado, o Instituto Tecnológico Vale (ITV). Segundo o diretor do ITV, Luiz Mello, com a ajuda de R$ 120 milhões, o objetivo é explorar novas oportunidades nos setores de mineração, energia, ecoeficiência e siderurgia, por meio de estudos em conjunto com fundações de apoio à pesquisa de São Paulo, Minas Gerais e Pará.

Trem biocombustível – Entre os resultados de uma cultura empresarial voltada à inovação e desenvolvimento – e que deve movimentar recursos da ordem de US$ 1,2 bilhão só neste ano –, situam-se inovações como o processo de beneficiamento a seco do minério de ferro – que passa a ser peneirado a partir da umidade da própria mina. Esta tecnologia pode proporcionar uma economia anual de 19,7 milhões de metros cúbicos de água e reduzir o consumo de energia em mais de 18 mil mW ao ano.

Em logística, o diretor do ITV destaca projetos como o trem biocombustível, com freios eletro­pneumáticos e movido a uma mistura de gás natural e diesel, e o helper dinâmico, locomotiva que se acopla ao trem em movimento.

Apoio de centros especializados em ciência e tecnologia acelera execução de projetos

Para desenvolver seus complexos sistemas e produtos na área de telecomunicações, a Research in Motion (RIM) sempre buscou apoio nas universidades de engenharia de Waterloo, onde está localizada sua matriz. "Em contrapartida, contribuímos com as pesquisas dessas instituições, em um ciclo virtuoso que beneficia a todos", afirma Alex Zago, gerente de inteligência de mercado da RIM para a América Latina. Somente entre os meses de março e maio desse ano, a empresa, que possui centros de P&D no Canadá, nos Estados Unidos e na Alemanha, investiu US$ 287 milhões, quase 7% do seu faturamento, para pesquisar novas tecnologias. Algumas soluções, aliás, surgem para apoiar outras criações inovadoras da RIM, como o BlackBerry Enterprise Server Express, um software de servidor gratuito que permite às empresas sincronizar as informações dos seus servidores de e-mail com os smartphones BlackBerry. "Ele possibilita gerenciar os smart­phones, aplicando 35 diferentes políticas de segurança", explica Zago.
Já a Mitel, empresa de soluções de convergência e Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), também tem investido em inovação por meio de seus centros de pesquisa, localizados na América do Norte, Europa e Ásia, e parcerias com universidades canadenses. A marca se destaca no mercado brasileiro com as soluções que possibilitam o processamento de aplicativos de voz, dados e imagem em ambiente virtual. "O programa proporciona mais eficiência aos ativos existentes, como memória, com redução de cerca de 30% do custo com telecomunicação e 25%, com hardware. Além disso, elimina a necessidade de manutenção nos terminais", afirma Paulo Ricardo Pinto, diretor geral da Mitel no Brasil. O próximo passo será a inauguração de um centro brasileiro de P&D em dois anos, para gerar aplicativos customizados para o mercado brasileiro e o Mercosul.

Todos esses investimentos em TIC têm deixado o Brasil em posição de destaque. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), Antônio Gil, o mercado brasileiro movimentou US$ 140 bilhões em 2009.

Soluções inéditas – Com laboratório em Montreal e recursos em torno de até US$ 200 milhões, a CAE South America, reconhecida no mundo pelos simuladores de voo para a indústria aeronáutica, decidiu explorar novos negócios. Em parceria com empresas da área médica e universidades do Canadá, a companhia desenvolveu uma tecnologia de simulação específica para a área médica, capaz de reproduzir as técnicas e possíveis erros durante intervenções médicas que requerem precisão.

"O diferencial é o nível de simulação muito próximo da realidade", diz Alessandro Pinho, gerente geral da empresa no Brasil.

Desde 1994, atuando no Brasil como distribuidor exclusivo dos aparelhos auditivos da empresa canadense Unitron Connect, o grupo Microsom também tem surpreendido o mercado brasileiro com soluções inéditas, como o aparelho Speech- Easy, único no país específico para tratar a gagueira, por possibilitar ao usuário ouvir, através do aparelho, o som da própria voz. A tecnologia simula um método de tratamento chamado efei­­to coro, reconhecido cientificamente. Outro lançamento é o Fuse, para correção auditiva, que, graças ao design, de dimensões mínimas (2,2 cm X 1,3 cm) e articulações flexíveis, torna seu uso quase imperceptível. "O modelo possui uma parte maleável, para se adaptar às curvas da orelha sem a necessidade de pré-moldagem para a personalização da cápsula, um processo que durava cerca de uma semana. Também possui tecnologias que reúnem as melhores características de conforto físico e auditivo de diferentes modelos tradicionais", explica a fonoaudióloga Maria do Carmo Alves Branco, gerente de produtos do grupo Microsom.

Na pecuária, o intercâmbio entre Brasil e Canadá também tem gerado soluções inovadoras. Resultado da parceria estratégica entre a SRC Genética e a multinacional canadense Semex Alliance – especializada na comercialização de  sêmen bovino –, a Semex do Brasil, com sede em Blumenau (SC), trouxe ao país uma tecnologia para acelerar a reprodução assistida dos gados de corte e leiteiro. "A tecnologia Repromix garante a fecundação das vacas, reduzindo o período entre partos", diz Nelson Eduardo Ziehlsdorff, diretor-presidente da Semex do Brasil.

Em 2010, o Brasil investirá R$ 50 milhões nos setores de ciência e tecnologia

A inovação possibilita ainda que, mesmo em período de gestação, a vaca continue a produzir leite, até que o produtor determine o momento para o descanso pré-parto. "No caso do gado de corte, todas as vacas podem ser inseminadas ao mesmo tempo", ressalta o executivo. Essa e outras tecnologias de melhoramento genético bovino, como a de seleção do sexo dos embriões, são desenvolvidas no laboratório  em Saint-Hyacinthe, na província do Quebec. "O valor investido em pesquisas e projetos é de 10% a 15% da receita annual", destaca Ziehlsdorff.

Método de avaliação

No gráfico, abaixo, os seis parâmetros mais utilizados pelas empresas nacionais para avaliar se os investimentos necessários para transformar uma ideia em projeto valem a pena:
Lucratividade da empresa 79%
Satisfação dos clientes 75%
Incremento da receita 73%
Tempo de comercialização59%
Geração de ideias 55%
P&D eficiente – 49%
fonte/source : Boston Consulting Group (BCG) / Measuring Innovation 2009


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