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Saúde

Diagnóstico favorável

Brasil e Canadá intensificam o intercâmbio no setor de saúde com a realização de negócios e o aumento de parcerias em cooperação internacional, pesquisa e ações sociais

Leandro Rodriguez

Diversas ações reforçam os vínculos entre Brasil e Canadá no setor de saúde, favorecidas pela crescente aproximação entre os dois países. Empresas, hospitais, instituições e governos aproveitam o momento para compartilhar interesses em comum. Segundo o Invest in Canada, o mercado canadense ocupa o quarto lugar no ranking mundial da indústria farmacêutica, enquanto dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que o setor movimenta 8,4% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e gera mais de 10 milhões de empregos diretos e indiretos. Previsões de especialistas brasileiros, por sua vez, indicam que o crescimento econômico, associado ao aumento do poder de compra e ao envelhecimento da população, deverá criar condições favoráveis para a atuação de companhias nacionais e estrangeiras.

Com base nessas perspectivas, o intercâmbio tem se transformado em negócios. Instalada na incubadora do Centro de Biotecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a FK-Biotecnologia é um exemplo de como as relações bilaterais estimulam a pesquisa e o comércio. Depois de concluir um doutorado na Universidade de Alberta e trabalhar em uma companhia canadense de biotecnologia, Fernando Thomé Kreutz decidiu fundar uma empresa de produtos biotecnológicos para medicina humana no Brasil.

Com a participação em eventos, Kreutz foi procurado pela ZBx Corporation (Toronto), especializada em plataformas de diagnósticos rápidos. As negociações deram origem, em 2008, a uma joint venture que visa explorar mercados internacionais com o uso de tecnologia das duas companhias. “O Canadá valoriza a participação ativa nos processos de inovação e de produção”, diz.

Além da pesquisa de uma vacina autóloga (produzida com células do próprio paciente) contra o câncer de próstata e da fabricação e distribuição de testes rápidos da ZBx Corporation, o executivo prepara a abertura de capital de uma nova empresa na Bolsa de Valores de Toronto, com o objetivo de ampliar o fluxo tecnológico bilateral. “De forma pioneira, o Canadá percebeu no Brasil uma possibilidade de abertura para pesquisas”, completa.

O intercâmbio entre os dois países também destaca-se em outro setor: o hospitalar, onde a acreditação canadense é incorporada à gestão, proporcionando mais qualidade de atendimento. “Antes de adotarmos esse modelo, considerávamos nossa metodologia ideal. Percebemos, no entanto, que utilizávamos o acompanhamento assistencial por meio de indicadores”, avalia Mariana Vendemiatti, responsável pela Gestão da Qualidade e Riscos do Hospital 9 de Julho (SP). Na sua opinião, o trabalho em equipe e o foco no fluxo do paciente são os principais diferenciais da acreditação canadense. “O modelo representa um ganho para os hospitais”, garante.

Canadá ocupa o quarto lugar no ranking mundial da indústria farmacêutica

Para Emanuel Toscano, diretor Administrativo da unidade Pompeia do Hospital e Maternidade São Camilo (SP), três fatores determinaram a escolha desse sistema: metodologia mais próxima da cultura da instituição, custos reduzidos de implementação e credibilidade. “O modelo estimula a participação de todos nos processos, aprimorando os procedimentos”, afirma, ao citar que a criação de equipes em diversas áreas do hospital facilitou a gestão. “Os profissionais canadenses também reforçaram a importância dos mecanismos de comunicação”, acrescenta. A meta agora é manter o sistema e estendê-lo às unidades de Santana e do Ipiranga, também em São Paulo.

A adoção da acreditação como mecanismo para a comprovação da qualidade, da segurança e da eficácia de produtos e equipamentos médicos importados pelo Brasil também é uma área promissora para brasileiros e canadenses. A questão é discutida em congressos internacionais, como uma tentativa de que, no futuro, hospitais e centros de saúde utilizem tecnologias certificadas para diversos mercados. A relação bilateral, nesse sentido, pode gerar bons resultados. “As grandes corporações sempre terão meios para levar suas inovações a outros países, mas o avanço tecnológico começa primeiro nas pequenas e médias empresas, que são maioria no Brasil e no Canadá”, analisa Paul Brooks, vice-presidente de Soluções de Healthcare da British Standards Institution (BSI).

No atendimento ao paciente, Albert Schumacher, ex-presi­dente da Canadian Medical Association (CMA), vê a possibilidade de o Brasil se tornar um parceiro comercial e científico representativo. “Importamos inovações que poderiam ser desenvolvidas com parceiros. O Canadá precisa estabelecer novas alianças mundiais e o Brasil assume posição de destaque na América Latina”, aponta. Segundo ele, a padronização da formação médica entre escolas públicas e privadas brasileiras facilitaria o intercâmbio de profissionais e a interação entre as empresas.

No campo da ação social e da cooperação internacional, os dois países também encontram oportunidades. No município de São Paulo, 43% da população recebem atenção primária segundo o conceito canadense de medicina da família. Esse índice é de 40% somente na zona leste, onde o Hospital Santa Marcelina implanta o programa Estratégia Saúde da Família e oferece atendimento a diversas famílias. “Pessoas da comunidade atuam junto com as equipes, o que nos permite conhecer melhor as condições de saúde locais”, observa a irmã Monique Bourget, diretora técnica do Hospital Santa Marcelina, ao ressaltar que a atenção primária é a solução mais indicada para a saúde brasileira, uma vez que permite a prevenção e o tratamento imediato de doenças. “Para o Canadá, o trabalho feito com a comunidade é visto com interesse por profissionais da área”, explica.

Atenção primária – Nos estados de Alagoas, do Ceará, da Paraíba e do Piauí, o projeto Aperfeiçoamento em Gestão da Atenção Primária (Agap), que visa promover a Atenção Primária à Saúde (APS) e melhorar os indicadores de saúde, contribui para a solução de vários ca­sos, como o abandono de tratamentos de tu­berculose, hanseníase e doenças do aparelho circulatório. Mantida pela Canadian International Development Agency (Cida), em parceria com o Ministério da Saúde e o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), a iniciativa conta com o apoio de médicos canadenses e brasileiros.
Lançada pelo Centro de Excelência para o Desenvolvimento na Primeira Infância (CEDPI), da Universidade de Montreal (Quebec), a Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância reúne 33 temas sobre o psicossocial infantil. Antes disponível apenas em outros idiomas, o conteúdo foi traduzido para o português como resultado da cooperação entre o CEDPI e o Conass. “Agradecemos ao Centro de Excelência por prover recursos que ajudam a elaborar políticas públicas para crianças pequenas”, disse o ministro da Saúde, José Temporão, na apresentação da edição.

Durante o encontro em Vancouver, uma comitiva brasileira, formada por Estela Haddad, do Departamento de Gestão da Educação para a Saúde e autoridades, definiu com representantes canadenses o desenvolvimento de projetos de Telesaúde em comunidades indígenas, visando levar atendimento de qualidade a locais remotos do país.
Ao contrário do que acontece no Canadá, a iniciativa privada tem uma presença mais marcante nos gastos em saúde, como mostram os dados abaixo:

Canadá
10,4% porcentual de gastos no setor em relação ao PIB

Governos municipais 0,8%
Governo federal 4,2%
Fundo de segurança social 1,4%
Governos provinciais 30,4%

Brasil
7,6%equivalem aos gastos em saúde no Brasil em relação ao PIB

Setor privado 58,4%
Setor público 41,6%

Rede de pesquisas
Com a meta de promover o desenvolvimento científico, a pesquisa e a capacitação tecnológica no Brasil, o Congresso Nacional discute, atualmente, a proposta de implementação de um projeto de lei para a criação – pelas universidades privadas – da Fundação de Pesquisa Universitária. Caso seja aprovada, a iniciativa visa estimular em todo o país o surgimento de novos projetos em inovação, além de incentivar  as parcerias com instituições internacionais, o que inclui, nesse caso, o setor de saúde. Segundo o texto original da proposta, os centros universitários e as faculdades privadas deverão reservar 3% e 2% de seu faturamento bruto, respectivamente, para projetos de pesquisa.




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