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Entrevista

Visão estratégica

Fundador do Canadian University Application Centre (CUAC), consultoria educacional representante de oito instituições de ensino superior do país, destaca as oportunidades para as relações bilaterais no setor e o potencial das parcerias entre as empresas brasileiras e as universidades canadenses

Leandro Rodriguez

Não é a primeira vez que Daniel Zaretsky, fundador da consultoria Canadian University Application Centre (CUAC), entidade que representa com exclusividade oito grandes universidades canadenses – Algoma University, McGill University, Osgoode Hall Law School (York University), Saint Mary’s University, University of Guelph, University of Victoria, University of Guelph-Humber, University of Windsor –, visita o Brasil. Além de definir estratégias com Rosi Vieira, diretora da filial brasileira da entidade em São Paulo – fundada  em 2009 –, ele aproveita sua presença no país para participar de vários encontros, com o intuito de promover os diferenciais e os benefícios do ensino superior do Canadá, principalmente no que se refere aos cursos de mestrado e especialização. O objetivo é impulsionar o intercâmbio entre os dois países em áreas de mobilidade de estudantes de ensino superior e de cooperação de pesquisas institucionais. Nessas ocasiões, Zaretsky também obtém informações mais detalhadas sobre o sistema de educação brasileiro e cria vínculos com pesquisadores, companhias, universidades e órgãos do governo. Particularmente a empresários, ele destaca o potencial e as vantagens da formação de parcerias entre empresas e centros universitários – e como esse modelo gera resultados positivos para os negócios em território canadense. O executivo, no entanto, alerta para a necessidade de o Brasil, em fase de pleno crescimento econômico, ser capaz de oferecer oportunidades de emprego aos profissionais recém-formados, incentivando ainda mais o interesse dos jovens pela formação superior. “O Canadá, certamente, pode ser uma ponte importante entre a graduação e uma formação continuada com base no conhecimento prático e no aprendizado de idiomas, fatores que aumentam as chances no mercado de trabalho em geral”, avalia. Em entrevista concedida à revista Brasil-Canadá, Zaretsky revela quais são os setores que hoje mais favorecem as relações bilaterais no ensino superior, relata os motivos que tornam o Brasil uma região estratégica na América Latina, além de destacar que, ao contrário do que a maioria das pessoas pensam, o Canadá oferece opções variadas que vão além dos tradicionais cursos de ensino de idiomas ou de curta duração.

Brasil-Canadá – Quais são os principais objetivos da vinda do CUAC para o Brasil?
Daniel Zaretsky – Queremos conectar muito mais o Canadá com o mundo no ensino superior. Não temos feito, como canadenses, um trabalho muito intenso nesse sentido. Atuamos com certa timidez, se considerarmos a qualidade do nosso modelo. No entanto, em vez de perceber isso como culpa dos países por não nos conhecerem bem, preferimos reconhecer que precisamos ser mais atuantes com estudantes, educadores, empresas e governos. Na prática, estou me encontrando com pessoas que representam esses grupos para apresentar as nossas universidades e as características do ensino superior canadense.

BC – O que tem sido feito especificamente nessa primeira etapa no país?
DZ – Apesar de ter vindo muitas vezes ao país, considero que essa é uma primeira etapa de nossos objetivos. O Brasil e o Canadá, duas economias significativas e similares em alguns pontos, têm o foco nos Estados Unidos, preferindo a cooperação com instituições norte-americanas. É importante manter parcerias com os Estados Unidos, mas sem excluir outras oportunidades. Estamos dando uma nova ênfase a isso e queremos que os brasileiros nos conheçam como um país distinto, de história à parte no continente. Em muitas áreas de pesquisa, seremos parceiros naturais. Estamos explorando e conhecendo o ensino superior daqui, assim como o potencial das contribuições que podemos oferecer. Por outro lado, também notamos uma significante falta de informação no Canadá sobre o Brasil. Por isso, muitas das nossas atividades no ano passado foram pensadas para que pudéssemos conhecer melhor o setor. Estou aprendendo muito.

BC – Qual é a sua avaliação sobre as instituições e o sistema de ensino brasileiro?
DZ – Noto aqui algo muito parecido com o que um estudante canadense percebe quando estuda em outro país. Nos Estados Unidos, na Índia e na China, é comum encontrar muita diferença de qualidade das instalações e do ensino muitas vezes oferecido em uma mesma região. O Canadá, por sua vez, tem se concentrado, durante as últimas décadas, em manter uma padronização para o que chamamos de research universities, motivo pelo qual as faculdades têm professores-doutores e instalações de alto padrão. Por isso, muitos setores e instituições devem se beneficiar da experiência e do conhecimento que as universidades canadenses têm a oferecer. Por outro lado, o Brasil também é uma inspiração para os nossos estudantes, pesquisadores e professores. É muito interessante, por exemplo, abastecer um veículo com etanol nas cidades brasileiras. A University of Windsor, uma das escolas do CUAC, se destaca no mundo em inovação para o setor automobilístico, particularmente no desenvolvimento de combustíveis alternativos.

BC – Além do intercâmbio científico, como as universidades canadenses podem explorar as oportunidades de negócios no Brasil?
DZ – Uma opção muito importante é atrair estudantes para os Professional Master’s Degree Programs. Um dos aspectos, que diferenciam a nossa educação superior, é a conexão existente entre a indústria e o mercado. Os estudantes assimilam experiência prática, em complemento ao aprendizado teórico. Esse modelo ainda não está totalmente desenvolvido no Brasil, mas é muito importante ter contato o mais rápido possível com a realidade das empresas e com as práticas do mercado. Se você se forma em engenharia, por exemplo, mas trabalha como administrador por falta de opções ou de capacitação, suas oportunidades de emprego diminuem com o tempo. O Canadá pode ser uma ponte importante entre a graduação no Brasil e uma formação continuada à base de conhecimento prático e de aprendizado de idiomas, fatores que aumentam as chances do profissional no mercado de trabalho brasileiro e internacional.

BC – E como fazer para que mais estudantes brasileiros percorram esse caminho?
DZ – As pessoas, em geral, desconhecem as oportunidades do Canadá em termos de aprendizado associado à experiência profissional. Tampouco conhecem as possibilidades de inserção no mercado de trabalho canadense, durante e depois dos estudos. À medida que se informarem, perceberão que as opções vão muito além do ensino de idiomas ou dos cursos de curta duração.

BC – O Brasil é estratégico na América Latina?
DZ – Não há dúvida. São Paulo é uma referência por sua representatividade populacional, mas já fizemos divulgação em Brasília e Recife. Não existe outro país na América, além dos Estados Unidos, com tantas semelhanças com o Canadá, a exemplo das proporções geográficas. Além disso, percebo um momento econômico muito vibrante no Brasil. A capacidade brasileira de acolher estrangeiros é outra semelhança positiva.

BC – Um marco desse momento econômico é a entrada, no ensino superior, de estudantes de baixa renda. Como avalia esse fenômeno?
DZ – A dúvida é saber se o Brasil será capaz de atender às expectativas desses novos estudantes, quando forem recém-formados. Se a economia não assimilar esses novos profissionais, haverá um descontentamento. O Canadá oferece oportunidades para quem deseja estudar sem ter muitos recursos. Os cursos de engenharia, por exemplo, tanto para canadenses quanto para estrangeiros, têm alternativas de financiamento e bolsas de estudo.

BC – Quais os setores mais promissores?
DZ – Os de maior destaque são o aeroespacial, o automobilístico, a mineração e especialmente o meio ambiente. As pesquisas científicas nesse campo e a engenharia ambiental oferecem muitas oportunidades para as relações bilaterais. Podemos mostrar às universidades daqui como conectamos a educação acadêmica com a experiência industrial e profissional.

BC – Como as universidades canadenses e brasileiras podem estreitar relações?
DZ – O processo está em curso com a maior presença de empresas do Brasil e do Canadá em ambos os países. Tento criar um vínculo entre as companhias e as universidades, principalmente no campo da pesquisa e do desenvolvimento. No Canadá, muitas empresas e instituições trabalham em conjunto para aumentar o capital intelectual necessário para os negócios.

BC – A crise financeira mundial influenciou a internacionalização canadense nesse setor?
DZ – Esse é um ponto interessante. A maioria dos canadenses desconhece o fato de que, há cem anos, o comércio bilateral entre o Canadá e os Estados Unidos era menos expressivo para a nossa economia. Nas últimas décadas, nos tornamos cada vez mais dependentes. A crise nos recordou algumas lições que havíamos esquecido. Vivemos um período de abertura e de criatividade em termos de parcerias com outros países.


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