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Matéria de Capa

Modelos de sustentabilidade

Certificações ambientais e boas práticas produtivas são cada vez mais exigidas no mundo dos negócios, principalmente no exterior, e motivam Brasil e Canadá a trocar experiências e desenvolver soluções inovadoras em diferentes segmentos de mercado

Denise Berto

Nos últimos anos, o destaque brasileiro em biocombustíveis é acompanhado com curiosidade pelos países desenvolvidos, interessados em incorporar fontes alternativas à sua matriz energética. Segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), em 2009 o estoque nacional atingiu 27,5 bilhões de litros, um aumento de 22% em relação ao ano anterior. Além de diversificar as fontes de abastecimento, os biocombustíveis reduzem as emissões de gases causadores do aquecimento global. Se antes a sustentabilidade era assunto para especialistas, agora é uma estratégia de gestão. Privilegiado em reservas naturais e apontado como potência agrícola, o Brasil é uma referência em soluções sustentáveis.

Na busca de respostas para o setor, o Canadá intensifica o intercâmbio bilateral. No início de 2010, 13 técnicos e executivos do programa Advanced Leadership Programme (ALP) visitaram a Unica para conhecer o processo dos biocombustíveis. “Eles queriam aprender sobre o desenvolvimento da área no Brasil, onde 90% dos veículos fabricados são flex”, diz Adhemar Altieri, diretor de Comunicação Corporativa da entidade.

Ser ambientalmente correto e economicamente viável é o desafio das companhias sustentáveis. O objetivo é ganhar competitividade, embora poucos saibam ao certo como fazê-lo. Por isso, a troca de experiências é necessária. Walfredo Schindler, diretor da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), diz que implementar medidas sustentáveis é sinônimo de sobrevivência, principalmente para as empresas que dependem do mercado externo. “As exigências são cada vez mais severas no que diz respeito às certificações de preservação ambiental e de boas práticas produtivas”, assegura.

O Brasil implanta o conceito em diversas áreas. Na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), por exemplo, o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) lista companhias “comprometidas com a responsabilidade social e a sustentabilidade empresarial”. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, quase R$ 3 bilhões são economizados anualmente no país com a reciclagem, valor  que poderia atingir R$ 8 bilhões se todos os resíduos e aterros sanitários fossem reaproveitados, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O potencial é grande e as inovações sustentáveis favorecem todas as áreas, reduzindo custos de produção. Experiente nesse campo, o Canadá aproveita e compartilha os benefícios, a exemplo do setor de alimentos.

Polo agroalimentar – Para apoiar a sustentabilidade de pequenos e médios produtores, o governo de Alagoas aplica conceitos do Quebec. A secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado, Janesmar Cavalcanti, conta que o intercâmbio começou com a visita de uma delegação do estado ao polo agroalimentar da província e a companhias da cidade de Saint-Hyacinthe. “Essas empresas surgiram a partir do modelo cooperativo e da integração com as universidades e centros de pesquisa”, explica. Em 2008, autoridades canadenses conheceram o polo alagoano de Arapiraca e Batalha, orçado em R$ 12 milhões. “A meta é dar suporte em inovação, desenvolvimento de produtos e processos, para que Alagoas seja competitiva”, enfatiza Janesmar.

A iniciativa privada, por sua vez, usa a sustentabilidade em novos produtos. A canadense
Denovo-Nutrition lançou uma tecnologia em nutrição animal: a aplicação de polifenóis na elaboração de rações. Fabiano Coser, diretor da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), diz que a inovação reduz o uso de antibióticos de crescimento, eliminando resíduos na carne. “Os produtos que reduzem a necessidade do componente certamente atraem os exportadores”, explica.
Contribuindo para o equilíbrio da natureza, as fontes de economia de energia motivaram Anthony Loureiro a formar a parceria com a canadense Naanovo Energy, conhecida como Naanovo Brasil. O executivo conta que a empresa oferece duas tecnologias: a WTE (incineração de resíduos urbanos com geração de energia) e a Solar Maax (energia solar), em negócios que geram quase R$ 50 milhões. “Instalaremos uma fábrica de coletores solares para abastecer a primeira usina termo solar do Brasil, prevista em Coremas, na Paraíba”, informa Loureiro.

ecologicamente corretos – Especializada na fabricação e distribuição de produtos químicos, a Chemflex também faz da sustentabilidade uma referência. “Oferecemos aos nossos clientes produtos ecologicamente corretos e tecnologias, que otimizam os processos”, diz o executivo Gilmar Negri. Como parte desta estratégia, a companhia mantém uma aliança com a canadense Siltech Corporation, de Toronto, fabricante de surfactantes especiais derivados de silicone, com enfoque na utilização sustentável de matérias-primas cosméticas. Com a Siltech, foram trazidos para o Brasil silicones produzidos com o mínimo de componentes químicos. A principal inovação são os modelos que permitem o uso de óleos naturais, sem a necessidade da emulsificação à base de derivados de petróleo. Desta forma, a Chemflex conta com um catálogo ecologicamente viável.

Implementar medidas sustentáveis hoje é sinônimo de sobrevivência no mercado

A Braskem – maior produtora de resinas termoplásticas das Américas e uma das corporações incluídas no índice de sustentabilidade da Bovespa – criou um programa para viabilizar a sustentabilidade em suas unidades, conciliando diferentes práticas de produção. O Braskem+ dá suporte para que a organização melhore o desempenho de ativos e processos, garantindo o aumento da eficiência e a redução de custos. Além disso, o grupo criou o selo internacional I’m green para produtos de fontes renováveis, que identifica polímeros produzidos a partir de matérias-primas renováveis. “Os indicadores de ecoeficiência melhoraram de 2002 a 2009. O de resíduos caiu 61%, o de efluentes 40%, o de consumo de água 19% e o de consumo de energia 12%. As taxas de emissões de gases também caíram. Além de reduzir o impacto nas operações, esses números aumentam o nosso reconhecimento”, ressalta Jorge Soto, diretor de Desenvolvimento Sustentável.

A visibilidade adicional é um dos ganhos indiretos da sustentabilidade. Em 2009, a Gerdau recebeu prêmios por suas iniciativas. José Paulo Soares Martins, diretor executivo do Instituto Gerdau, conta que “os produtos para a construção civil no Brasil foram reconhecidos com o Selo Ecológico, certificação concedida pelo Instituto Falcão Bauer da Qualidade, fato inédito no país”. O diretor observa que a preocupação ambiental é prioridade para a empresa. Todas as unidades do grupo seguem rigorosos procedimentos, que integram o Sistema de Gestão Ambiental (SGA). Atualmente, 41 plantas tem a certificação ISO 14001 (norma internacional de gestão ambiental em­presarial), enquanto as demais estão em processo. ”Nosso índice de emissão de carbono é 70% menor do que a média do setor em 2009”, finaliza.

Construções sem impacto
Brasil e Canadá também têm na arquitetura oportunidades a explorar. Avançados no planejamento de construções consideradas sustentáveis, arquitetos canadenses podem ser uma importante fonte de conhecimento de profissionais brasileiros. Para Ricardo Vasconcelos, sócio-diretor dos escritórios RVA Arquitetura, na área de projetos, e GreenWorks, na de consultoria em construção sustentável, o Brasil está atrasado em relação ao mundo. “Nosso problema é cultural. Precisamos conscientizar não apenas as grandes empresas, mas, principalmente, as médias e pequenas, cuja maioria ainda é alheia a este movimento essencial para o futuro do planeta”, considera. Ele destaca que a construção civil é um dos setores que causam maior impacto ambiental no planeta: responde por 30% do efeito estufa, produz 2/3 dos resíduos sólidos e utiliza 13% da água consumida no mundo. “A luz natural é o ponto chave de um projeto sustentável. Beneficiar a entrada de luz solar é o primeiro passo de
uma construção desse tipo”, explica.

cidades verdes
A consultoria internacional Mercer elaborou um ranking das cidades mais “verdes” do planeta, baseado em seis principais indicadores: acesso à água, suprimento de água potável, coleta de lixo, rede de esgoto, poluição do ar e trânsito. Nessa disputa, Calgary, capital da província de Alberta, lidera a lista à frente de Honolulu (Estados Unidos) e Ottawa, capital canadense. A vantagem do Canadá sobre outros países é ainda mais marcante pelo fato de Montreal (13º), no Quebec, e Vancouver (14ª), em British Columbia, também aparecerem entre as 20 primeiras cidades. O Brasil, por sua vez, não conta com representantes nem mesmo entre as 50. Calgary (Canadá)
2º Honolulu (EUA)
Ottawa (Canadá)
Helsinki (Finlândia)
Wellington (Nova Zelândia
Minneapolis (EUA)
Adelaide (Austrália)
Copenhagen (Dinamarca)
Kobe (Japão
10º Oslo (Noruega)


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