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Educação

Aprendizado em curso

Mais bem preparadas pelas reformulações pedagógicas e estruturais realizadas após a crise financeira global, universidades brasileiras e canadenses reforçam o intercâmbio educacional e prevêem um aumento da procura de profissionais pelos cursos MBA em 2010

Paula Monteiro

Superado o pior da crise financeira internacional, os cursos de MBA, também prejudicados pela instabilidade da economia mundial, dão os primeiros sinais de recuperação e começam a atrair mais estudantes e profissionais para as salas de aula. Depois de um período de reflexões sobre seu papel na formação de executivos capazes de superar desafios, universidades canadenses e brasileiras definem estratégias para o futuro. O primeiro passo já foi dado: muitos programas e disciplinas estão mais ajustados à realidade macroeconômica atual, o que tem trazido ânimo renovado às instituições. Sinal disso é a aposta inequívoca das entidades no crescimento do setor, com o objetivo de promover novas oportunidades de capacitação e aprendizado dentro e fora do Brasil.

“O crescente interesse de profissionais qualificados em estudar no Canadá e a importância que o Brasil alcançou internacionalmente foram decisivos para a abertura de nossa filial em São Paulo”, afirma Rosi Vieira, diretora do Canadian University Application Centre (CUAC). Fundada há 12 anos, a consultoria educacional, que representa exclusivamente sete universidades canadenses, dentre elas a McGill University e a York University’s Osgoode Hall Law School, oferecerá vários serviços – triagem de cursos, inscrição e matrícula, entre outros – e atuará no estabelecimento de parcerias com universidades e empresas brasileiras.

“Desde a inauguração, cerca de 200 pessoas já nos procuraram, com maior interesse pelos MBAs e pelos programas de finanças, engenharia e ciência da computação”, conta Rosi. Ela explica que, no Canadá, a oferta de pós-graduação inclui cursos para executivos e para quem não atua especificamente na área de negócios, mas busca um conhecimento adicional. Além disso, é possível obter experiência profissional a partir dos estudos, uma vez que, mesmo depois de formado, o estudante estrangeiro pode permanecer no país pelo período de um a três anos. Esse diferencial, de fato, tem atraído brasileiros.

Alguns dados sinalizam o reaquecimento da demanda. O Centro de Educação Canadense (CEC), por exemplo, registrou um aumento anual de 23% na procura por seus serviços nos últimos três anos. “Isso inclui os cursos de graduação, de pós e de idiomas. Dessas opções, as informações sobre os programas de pós estão entre as mais requisitadas em nosso atendimento”, afirma Carolina Cardoso, diretora da entidade. Ela esclarece que, com a crise financeira, o movimento chegou a cair de novembro de 2008 a março de 2009 – período mais conturbado no mundo –, mas voltou a aumentar nos meses seguintes.

Contudo, é possível perceber uma cautela maior na efetivação das vagas. No universo corporativo, algumas empresas interromperam processos e cancelaram benefícios de executivos para reduzir gastos, enquanto muitas pessoas, por receio ou dificuldade de obter crédito, preferiram adiar seus planos de estudo no exterior. “Apesar da curiosidade principalmente pelas áreas de administração, engenharia, tecnologia da informação, meio ambiente e saúde, verificamos uma queda nas matrículas. Foi uma questão de adiar o investimento, mesmo porque o ano letivo canadense começa em setembro”, explica Carolina. A diretora, porém, não dissimula o otimismo e diz acreditar na recuperação do setor em 2010.

Essa é também a avaliação predominante na CUAC. A consultoria prepara parcerias com duas universidades brasileiras e uma companhia multinacional e prevê o ingresso de mais alunos do país em suas escolas associadas. “Vamos esperar até o fim do primeiro semestre de 2009 para traçar metas e estratégias mais realistas para o Brasil”, declara Rosi. Segundo a representante, uma indicação positiva é a disposição crescente das instituições nacionais para firmar acordos com similares canadenses, oferecer dupla diplomação e ganhar reconhecimento local e internacional. “Há também módulos de MBAs sendo ministrados em inglês, para atrair mais estrangeiros”, observa.

Outras iniciativas entram em cena para tornar os produtos mais atraentes. Para o Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), em São Paulo, a renovação curricular, a diversidade na oferta e as parcerias internacionais terão um peso importante no cenário pós-crise. “Temos o objetivo de ampliar os formatos dos cursos para oferecer ainda mais alternativas aos alunos”, destaca Silvio Laban, coordenador de programas de MBA. A escola disponibiliza, nesse segmento, dois cursos executivos, um executivo em Finanças e outro executivo em Gestão de Saúde. Entre os demais ajustes estruturais cogitados, estão sendo avaliadas a possibilidade de aumentar a carga horária à distância, em complemento à carga presencial, e a variação da oferta de vagas, atendendo à demanda de estudantes que só podem se dedicar nos finais de semana.

Capacidade de adaptação – Já no que se refere às parcerias internacionais, o instituto trabalha com a perspectiva de iniciar com uma universidade canadense – embora não revele seu nome – o intercâmbio educacional com base em disciplinas eletivas e em módulos comuns. Atualmente, e com vistas à internacionalização, a escola mantém acordos com as instituições americanas Darden Business School, da Universidade de Virgínia, e Freeman School of Business, da Universidade de Tulane. “Esta última permite ao aluno a dupla diplomação”, conta Laban, que considera precipitado fazer um prognóstico  sobre 2010, mas avalia que as matrículas previstas para o primeiro trimestre estão dentro das expectativas.

Alguns centros de ensino concluíram ajustes em suas diretrizes de trabalho, visando uma melhor preparação para enfrentar momentos econômicos mais difíceis. É o caso da Business School São Paulo (BSP), que abriu 12 novas turmas em 2009. A empresa oferece dois tipos de MBAs – o executivo e o especializado, com ênfase em Liderança e Gestão de Pessoas, em Estratégia Empresarial e em Gestão de Tecnologia da Informação. “Nossa demanda não foi afetada pela crise internacional, porque nos ajustamos ao novo cenário, com cursos que propõem ao mesmo tempo uma visão abrangente e gerencial, além de um mergulho na respectiva especialização”, afirma o diretor Acadêmico Armando Dal Colletto.

Um destaque é a parceria, desde a sua fundação, em 1995, com a Rotman School of Management, da Universidade de Toronto (Ontário), à qual enviou 25 alunos ao longo de 2009 – todos passaram por um programa obrigatório de residência de duas semanas no Canadá. “Nosso Executive MBA, totalmente em inglês, tem um módulo ministrado em Toronto, que foi desenvolvido especialmente para a BSP”, diz. Há ainda outras duas parcerias canadenses, com a University of Victoria, em Vancouver (British Columbia), e com a Saint Mary’s University, em Halifax (Nova Scotia). “Em 2010, passaremos a oferecer dupla certificação em nossos MBAs, o que já acontece com a Universitat Politècnica de Catalunya (UPC), em Barcelona (Espanha), para o programa em português”, completa.

A maioria das instituições acredita que o pior da crise já passou, mas percebe que os negócios precisam acompanhar as novas demandas. A partir dessa constatação, Olavo Henrique Furtado, coordenador de pós-graduação e MBA da Trevisan Escola de Negócios, espera um aumento de matrículas em médio prazo, mas em outras bases, uma vez que o público ficou muito mais exigente e seletivo. “As escolas de negócios terão de ser ‘coparticipantes’ da carreira dos alunos, oferecendo maior diversidade e estrutura de programas, com um corpo docente altamente qualificado. Além disso, devem oferecer um serviço de coaching, indicando aos indecisos o caminho a seguir”, ressalta. Com essa visão, a Trevisan lançará vários cursos em 2010, estruturados em MBA Premium, por setores econômicos e por áreas de conhecimento e de especialização (lato sensu).

As novidades incluem o programa em Gestão de Varejo Bancário, Gestão Educacional, Executivo em Seguros, Branding (gestão de marcas), e especialização em Gestão de Negócios Internacionais e em Business First Class. Furtado esclarece que a política interna de renovação dos cursos prevê a implementação de mudanças a cada dois anos. No futuro, a intenção da escola é estabelecer parcerias para o intercâmbio internacional, com destaque para os MBAs mais procurados: em Contabilidade e Controladoria, em Gestão e Marketing Esportivo, em Gestão de Riscos e Compliance e em Gestão Tributária. “Algo novo é um acordo, feito no final de 2009, para o estágio de alunos de MBA em Gestão e Marketing Esportivo na Itália”.

Na Fundação Instituto de Administração (FIA), da Universidade de São Paulo (USP), o que marcou o último ano foi a implantação do International MBA, ministrado inteiramente em inglês. “O objetivo desse curso é atender a profissionais de empresas do exterior que negociam com o Brasil e querem entender melhor esse parceiro comercial e também a executivos que desejam se aclimatar para trabalhar no país”, conta Adalberto Fischmann, diretor Educacional. Segundo ele, cerca de 20 alunos vindos de países da Europa, América Latina e Estados Unidos foram aceitos nesse modelo de programa. Entre as opções procuradas, destacam-se as áreas de gestão empresarial, finanças, marketing, recursos humanos, marketing de serviços e negócios do varejo, com demanda de pelo menos uma turma a cada semestre.

“Com o cenário de crise no final de 2008, chegamos a estimar uma queda de 10% a 15% na procura pelos MBAs em 2009, mas a redução acabou sendo inferior a 5%”, diz Fischmann. A instituição, que realiza intercâmbios com universidades dos Estados Unidos, Inglaterra, França, Itália, Rússia e China, envia para o exterior, em média, 50 alunos de pós-graduação (incluindo aqueles matriculados em MBAs), por semestre, para promover a troca de conhecimentos. A escola também se empenha em avaliar as necessidades do mercado, o que facilita a atualização das grades curriculares. “Para um contínuo ajuste do conteúdo dos programas executivos, em linha com os avanços tecnológicos e com a educação, essas avaliações são sistemáticas”, garante Fischmann.

Ferramenta profissional  – As empresas dedicadas à preparação de candidatos para os cursos também notam uma melhora do setor. A MBA House registrou, em 2009, um aumento de 40% na procura pelo serviço preparatório para o teste de admissão Graduate Management Admissions Test (GMAT), exigido pelas instituições de ensino internacionais para o ingresso em programas de MBA. “Com a crise internacional, muitas pessoas perceberam que seus empregos não estavam tão protegidos quanto parecia e que os estudos fora do país seriam a chance de se prepararem à mudança de carreira, abrir um negócio ou mesmo estabelecer um networking internacional”, avalia o presidente Marcelo Ambrózio Ramos.

A fase preparatória dos candidatos pode durar de seis meses a um ano e meio, e inclui o application, o processo de montagem e envio de toda a documentação necessária, como cartas de recomendação, currículo, histórico e diplomas acadêmicos em inglês e ensaios sobre o conhecimento pessoal e profissional do estudante, além de suas habilidades e objetivos. “Oferecemos também cursos preparatórios para os testes Graduate Records Examination (GRE), que visam o ingresso em mestrados e doutorados, e Scholastic Assessment Test (SAT), para a aprovação em cursos de graduação. No entanto, cerca de 90% da procura está concentrada mesmo no GMAT”.

Do total de interessados nesse procedimento, de acordo com Ramos, 80% são executivos, enquanto os outros 20% têm experiência profissional em várias áreas, como médicos, advogados e psicólogos, que pretendem mudar de carreira. Entre os países mais requisitados, o Canadá aparece em quarto lugar na preferência dos candidatos, logo depois de Estados Unidos, França e Inglaterra. “A facilidade à obtenção do visto de permanência e a possibilidade de poder morar com a família no país são fatores atraentes”, diz. Já as universidades mais procuradas por quem opta por esse destino, segundo Ramos, são a Schulich School of Business, na York University, e a Rotman Business School, em Toronto (Ontário); a Sauder School of Business, da University of British Columbia, em Vancouver (British Columbia); a Richard Ivey School of Business, da University of Western Ontario, em London (Ontário); e a HEC Montréal e a Desautels Faculty of Management, da McGill University, em Montreal (Quebec).

Por sua vez, a Student Travel Bureau (STB), que mantém parceria com o George Brown College, em Toronto, para a oferta de programas de pós-graduação no Canadá – incluindo MBAs –, reforça a tendência de expansão do setor. “O número de pessoas que nos procuraram com interesse em fazer cursos de pós-graduação no exterior aumentou em torno de 40% este ano”, afirma Bruno Seixas, gerente de High School e Higher Education. De acordo com o executivo, o serviço de apoio oferecido pela empresa contempla desde a identificação do programa que melhor atenda às necessidades do cliente até o processo de inscrição na instituição de ensino escolhida. Também é realizado o acompanhamento on-line da evolução do aluno no curso, por orientadores no Brasil, até que ele retorne ao país. Entre os próximos passos da empresa, está o aumento da oferta de destinos internacionais e de programas de pós-graduação. A expectativa de Seixas é de uma expansão de cerca de 50% na procura por esses cursos somente em 2010. 

Lista de referência
Entre diversas vantagens, os cursos MBA realizados em universidades e escolas de negócios e administração reconhecidas mundialmente garantem ao estudante e ao profissional uma maior projeção internacional. Para ajudar na escolha das melhores instituições, o jornal Financial Times publica a cada ano um ranking dos melhores programas. Na lista dos 100 MBAs mais bem colocados de 2009, é possível encontrar cinco escolas canadenses e uma brasileira, sinalizando a presença dos dois países no cenário global desse concorrido segmento da educação. As listas dessa e de outras categorias de cursos estão disponíveis no site: http://rankings.ft.com/businessschoolrankings


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