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Matéria de Capa

Poder de compra

Acesso ao crédito e ações do governo estimulam o consumo nacional, despertando o interesse de grupos canadenses, como a rede de supermercados Sobeys, e de empresas nacionais em diferentes setores

Paula Monteiro

Ao contrário do que acontece em outros países, os supermercados brasileiros parecem não viver a crise financeira mundial. Essa vantagem chamou a atenção da rede Sobeys, segunda maior em itens alimentícios, com 1.300 lojas distribuídas em todo o Canadá, que em setembro participou da 3ª Rodada Internacional de Negócios da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), com o objetivo de trocar informações e conhecimento. “Acreditamos que o Brasil possa oferecer inúmeras oportunidades de importação direta de produtos alimentícios para as nossas marcas próprias”, revela Martin Hall, vice-presidente de Serviços Globais de Aquisição.

O interesse pela produção nacional está direcionado a três principais categorias de produtos: café, frutos do mar e confeitaria. “O objetivo principal dessa visita foi explorar o mercado local, a base de fornecedores, as infraestruturas e a paisagem comercial global”, acrescenta. O executivo reconhece haver um desconhecimento da economia brasileira, mas revela o interesse em obter o máximo de informações no curto prazo. Segundo a Abras, as redes nacionais obtiveram crescimento de cerca de 5% do faturamento no primeiro semestre, em relação ao mesmo período de 2008, devendo fechar 2009 com alta de 4,5%. O incremento do volume de vendas foi determinante para o resultado, já que, segundo Sussumu Honda, presidente da entidade, os preços mantiveram-se praticamente estáveis.

Para outras empresas do Canadá, avanços como esse são sinônimo de oportunidade. A Air Miles, companhia detentora do maior programa mundial de recompensas e fidelização de clientes, decidiu aportar US$ 5,5 milhões na Dotz, líder do segmento no Brasil. “O crescimento da classe média e a maior competitividade de mercado tornam o ambiente favorável para a ampliação desses programas”, avalia Jay Malowney, vice-presidente da Air Miles. Roberto Chade, presidente da Dotz, acrescenta que “há um grupo de consumidores expressivo oferecendo maior abrangência ao mercado interno”. Esse grupo refere-se em grande parte à classe C (de renda familiar média mensal entre R$ 1.064 e R$ 4.591, segundo a Fundação Getúlio Vargas), cuja ascensão tem beneficiado diversos setores. Sua disposição para as compras vem transformando inclusive o universo das transações on-line – essa camada da população concentrou 42% das vendas acumuladas em julho –, incentivando investimentos de empresas de varejo como Casas Bahia e Magazine Luiza.

Um dos primeiros países a dar sinais de resistência à atual crise, o Brasil retoma sua trajetória de crescimento, apoiado na evolução do consumo: a dinâmica do mercado interno tem compensado a queda das exportações, reduzindo a dependência dos países desenvolvidos. Em encontro do Comitê Econômico da Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC), realizado em setembro, Fernando Sampaio, sócio da LCA Consultores, expôs que são cada vez mais claros os sinais de que a recessão mundial está sendo superada mais rapidamente nos países emergentes. Segundo ele, além do crescimento a taxas mais robustas da produção no país, com a inflação sob controle, as vendas do comércio varejista evidenciam forte retomada, o que refletiu na criação de novos postos de trabalho no início do terceiro trimestre de 2009. Para o executivo, essa conjuntura torna o Brasil ainda mais atraente para o investimento estrangeiro.

“Medidas de política monetária, com programas de aumento de liquidez e redução da taxa de juros, se mostraram eficazes”, afirma Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. Segundo ele, essas iniciativas estimularam o aumento de cerca de 60% da renda da população. “Prevemos uma queda na produção industrial em torno de 8,5% em 2009, avaliando que a indústria e as exportações foram muito afetadas, mas projetamos um aumento de quase 2% no consumo das famílias”, diz.

Expansão de capacidade – Depois da cautela inicial provocada pela crise, os brasileiros voltaram às compras, motivados pelos incentivos do Governo Federal e pela oferta de crédito. Para 2009, a previsão é de que o consumo nacional corresponda a R$ 1,86 trilhão, com aumento de 1,6% em relação a 2008, de acordo com dados do instituto de pesquisas Target Marketing. “A indústria está com baixos estoques e, com a proximidade do Natal, deverá ter uma boa recuperação, repercutindo nas vendas do comércio”, destaca Vale.
No entanto, não há setor no país com projeções tão promissoras como o automotivo, favorecido principalmente pela redução das alíquotas do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) na compra de veículos novos. Em junho, as concessionárias alcançaram o patamar histórico de 289.792 unidades vendidas, alta de 22% em relação ao mês anterior, segundo a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).

A conquista acelerou os investimentos. A General Motors do Brasil, por exemplo, pretende lançar, ainda este ano, o Agile, um novo modelo compacto. Visando fabricar produtos nas plantas da Argentina e do Brasil destinados a mercados emergentes, a montadora destinará US$ 400 milhões ao projeto. Em julho, a montadora também anunciou um aporte de R$ 2 bilhões para o lançamento de uma nova família de veículos em 2012, além da expansão da capacidade da fábrica de Gravataí (RS) para a produção de 380 mil veículos/ano. “Desse total, R$ 1,4 bilhão será direcionado para a cidade e o restante para as demais unidades no país”, conta o vice-presidente José Carlos Pinheiro Neto.

Na Volkswagen, a meta é produzir um milhão de unidades por ano, até 2012, ampliando sua capacidade em 39% em relação a 2008. Com esse avanço, a companhia responderá por um terço do total de carros vendidos no Brasil, impulsionando toda a cadeia produtiva. Em 2009, as compras da marca devem atingir R$ 11 bilhões, montante 10% maior em comparação ao ano passado. De janeiro a junho, a empresa registrou queda nos lucros mundiais de 81%, mas a sustentação dada pelas vendas em países emergentes evitou um prejuízo maior.

No segmento imobiliário, programas de habitação, como o Minha Casa, Minha Vida, do Governo Federal, e a estabilização da economia deram fôlego à construção civil. A oportunidade de atender mais intensamente à demanda da classe C levou a empresa canadense Royal do Brasil Technologies a ampliar sua atuação. “Buscamos alternativas para aumentar a capacidade produtiva em breve, incluindo a produção de alguns perfis de PVC no Brasil”, diz Carlos Eduardo Torres, diretor-geral da companhia.

Luiz Rogelio Tolosa, diretor de Relações Institucionais e com Investidores de Brookfield Incorporações, por sua vez, prevê uma expansão do setor equivalente a duas ou três vezes a taxa de expansão do Produto Interno Bruto (PIB), em pelo menos dez anos, ao considerar que cerca de 50% dos brasileiros têm menos de 25 anos e buscam espaço no mercado de trabalho. “No primeiro semestre, lançamos 2% de empreendimentos a mais do que no mesmo período de 2008 e alcançamos 56% de aumento nas vendas contratadas”, conta, ao destacar que o valor e o prazo maiores de financiamento, além da redução dos juros do crédito habitacional, levaram muitos casais jovens da classe C a comprar a casa própria.

“Se, em 2006, uma família precisava de 14 salários mínimos para adquirir um imóvel de R$ 80 mil, atualmente precisa de seis”, compara. Ele revela que 70% dos empreendimentos da empresa são para a classe média, vendidos a menos de R$ 500 mil, enquanto 9% atendem às regras do programa Minha Casa, Minha Vida, com valor de venda de até R$ 130 mil. “Os lançamentos devem totalizar de R$ 2,5 bilhões a R$ 3,1 bilhões em 2009”, completa.

Nos últimos anos, o consumo interno tem atraído investidores canadenses para a indústria de shopping centers – símbolos do maior poder de compra da população. Ancar Ivanhoe e Cadillac Fairview (em parceria com a brasileira Multiplan) se situam entre os dez maiores administradores nacionais. Seus investimentos se espalham por todo o país, em grande parte devido à experiência canadense nesse tipo de operação. A Brookfield Brasil Shopping Centers, por exemplo, posiciona-se como uma das principais empresas do país que investem no segmento.

Assim como na construção civil, outros setores – como o de turismo – dão sinais de recuperação. A Trip Linhas Aéreas é uma das que aproveitaram a retomada do consumo interno para investir em sua frota e malha aérea. “Atendemos a 73 destinos com 27 aeronaves e, até o final do ano, pretendemos ampliar esse número para 30 aeronaves e 80 localidades”, conta José Mário Caprioli, presidente da empresa. Com aumento de mais de 175% do faturamento bruto em 2008, em relação ao ano anterior, Caprioli projeta vendas 70% superiores este ano. Em 2010, a companhia pretende investir R$ 200 milhões na compra de mais oito aviões.

Na Air Canada Brasil, a taxa de ocupação de 91%, em julho, superou o resultado global da companhia que, sobre a base regional consolidada com a Jazz (que fornece capacidade regional), encerrou o mês com 83,6%. “Apesar da fragilidade da economia mundial, este resultado é reflexo de nosso disciplinado gerenciamento de capacidade”, declara Calin Rovinescu, presidente e CEO da Air Canada.

O segmento de luxo também se recupera. Especializada em promover roteiros a pé ou de bicicleta, a canadense Butterfield & Robinson enfrentou uma pequena retração nos primeiros meses do ano, com queda de 10% nas vendas de pacotes turísticos em relação ao mesmo período de 2008. “Como nossos clientes têm decidido viajar com menos antecedência, acredito que recuperaremos essa diferença até o final de 2009”, diz Marcia Lucas, representante da empresa no país. A executiva observa que a maior preocupação com o custo de viagens bespoke (privativas) faz as pessoas optarem por pacotes mais enxutos. Por isso, a companhia planeja diversificar suas opções de viagens. “Continuamos, no entanto, com a atenção voltada para quem busca aventura com sofisticação e muito conforto”, garante Marcia, que espera obter resultado positivo de 12% em relação ao ano anterior. 

Com lojas também no Canadá, a grife Patachou pretende criar coleções para quem busca preços reduzidos, sem perder sua característica original, que é oferecer artigos diferenciados. “Estamos viabilizando uma nova marca para pessoas que, em certos casos, abrem mão de um aspecto de qualidade em função do preço”, afirma José Antônio Mendes Cabral, da área de Operações. Apesar da redução média de 10% de vendas no atacado em 2008 – e números estáveis no varejo –, a aposta é pela expansão da estrutura física. “Temos meta de abrir cinco novos pontos de varejo próprios entre 2009 e 2010, além de franquias. Pretendemos ainda reativar as exportações”, diz Cabral.

Um dos fatores responsáveis pelo movimento do mercado interno, o acesso ao crédito – retraído após o anúncio da crise – voltou a estimular o consumo no Brasil. Pesquisa da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), divulgada em julho, revela que, pelo sexto mês consecutivo, as taxas das operações de crédito foram reduzidas, o que pode ser atribuído à redução da taxa básica de juros (Selic) e à melhora do quadro econômico. Entre dezembro de 2008 e julho de 2009, a taxa média de juros para pessoa física apresentou queda de 7,33 pontos percentuais, ou 5,3%, passando de 137,9% para 130,6% ao ano.

No Santander, por exemplo, as transações na área de pessoa física atingiram R$ 330 bilhões em 2008. “De forma global, esse mercado cresceu 20%. A expansão foi maior para alguns produtos, como crédito imobiliário (40%), cartão de crédito (27%) e crédito pessoal (25%)”, afirma Eduardo Francisco de Castro, superintendente executivo de Produtos do Grupo Santander Brasil. Uma pequena desaceleração no consumo de bens duráveis e nas despesas do dia a dia nos primeiros meses de 2009, no entanto, provocou um desempenho mais modesto, com operações totais de R$ 25 bilhões de janeiro a maio. “Percebemos uma retomada do consumo. Por isso, esse mercado de produtos de crédito para pessoa física deve crescer 15% este ano”, diz Castro.

No Itaú Unibanco, o segmento de cartões de crédito corresponde a 17 milhões de clientes, entre correntistas e não correntistas, o que fez o grupo obter, em 2008, uma carteira de R$ 15,8 bilhões e um faturamento de R$ 63,2 bilhões. O desafio para 2009 é reforçar a base de cartões de crédito com chip. Na área de crédito direto ao consumidor, a instituição tem atendido mais de 5,2 milhões de clientes com produtos e serviços financeiros das marcas Taií e Fininvest. Esses dois canais estão voltados inclusive para o crédito consignado, segmento que, ao final de 2008, representava R$ 79 bilhões, ou 55% do total de crédito pessoal concedido no sistema financeiro.

A Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) apurou um volume financeiro negociado por todas as modalidades do setor – crédito, débito, loja e redes de estabelecimentos – de R$ 388,7 bilhões em 2008, patamar 24% superior ao de 2007. A maior parte desse valor foi movimentada por consumidores que utilizaram seus cartões de crédito, no total de R$ 223,5 bilhões gastos durante o período. Os cartões de débito foram igualmente aproveitados, totalizando R$ 112,3 bilhões em compras. Tais cifras, anteriores ao pior momento da crise financeira, destacam o que hoje se percebe como força sustentadora do mercado interno brasileiro: uma maior disponibilidade de crédito para ampliar o acesso ao consumo. 

Reação canadense

No Canadá, dados recentes demonstram que a economia desacelera mais do que o esperado, embora o mercado interno comece a reagir aos efeitos da crise financeira internacional. No segundo semestre de 2009, o Produto Interno Bruto (PIB) do país encolheu 3,4%, em relação ao mesmo período de 2008, segundo Statistics Canada. As projeções de analistas apontavam para uma retração de 3%, enquanto o Bank of Canada previa uma queda de 3,5% para o mesmo período. Apesar do resultado negativo, alguns indicadores sugerem que a primeira recessão canadense desde 1991 pode estar chegando ao fim, também favorecida pela demanda doméstica. No segundo trimestre de 2009, a economia cresceu 0,4% frente ao período equivalente do ano passado, incentivada pelos gastos dos consumidores (+1,8%) e dos governos do país (+3,2%).


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