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Edição nº 32
Artigo
Conhecendo-se
Uma verdadeira relação bilateral envolve muito mais do que apenas o comércio. Uma relação bilateral consolidada implica elementos de duas modalidades: elementos essenciais (por exemplo, acordos militares e de comércio propriamente ditos) e elementos “acessórios” (por exemplo, valores em comum, o diálogo, e uma visão compartilhada do mundo). Às vezes, os elementos mais difíceis de se negociar são os essenciais, mas os mais difíceis de se implantar são os “acessórios”. Nem sempre o diálogo é amigável, e pode haver diferenças entre a visão do mundo das partes como função de circunstâncias específicas. Consequentemente, cada parte deverá estar disposta a respeitar as diferenças e as semelhanças que as unem. Cada uma das partes deverá, às vezes, ser capaz de concordar em discordar, sem comprometer os elementos fundamentais que as unem.
Tenho trabalhado com diplomatas e executivos de empresas tanto do Canadá quanto do Brasil desde o início dos anos 1980, e realmente acredito que há muito que possa unir os dois países em uma profícua relação bilateral. Além disso, parece-me que não existe ocasião mais premente do que o momento atual para expandir ainda mais essa relação. Ao longo das últimas décadas, constatei que, até recentemente, nem o Canadá e nem o Brasil sabiam muita coisa um a respeito do outro. O verdadeiro potencial de uma relação bilateral era ofuscado, pelo menos em parte, pela relação de cada um dos dois países para com as economias dos Estados Unidos e da Europa. Setenta e cinco por cento do comércio do Canadá ocorria diretamente através da fronteira com os EUA. O Brasil não vislumbrava nenhuma vantagem em particular em obter acesso ao mercado dos EUA através do Canadá, se tinha a possibilidade de fazê-lo diretamente. Mas, ocorreu uma convergência de vários fatores, o que fez com que os dois países mudassem seus pontos de vista.
O primeiro foi o 11 de Setembro e a consequente “Lei do Patriota” (Patriot Act), que resultou em enormes dificuldades para brasileiros que buscavam entrar nos EUA para estudar, fazer negócios, ou simplesmente visitar o país. Um segundo fator foi a crise financeira de 2008, cujos efeitos ainda se fazem sentir. Outro foi o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) que facilitou o comércio entre os EUA, Canadá e México. No tocante ao primeiro, a simples obtenção de um visto para entrar nos EUA tornou-se cada vez mais difícil. Os brasileiros não demoraram em descobrir que o Canadá oferecia as mesmas vantagens em matéria de educação e acesso à tecnologia que os EUA. A crise financeira de 2008 colocou em evidência a eficiente gestão da macroeconomia canadense, que pouco sofreu com os efeitos da crise americana de financiamento imobiliário. O NAFTA revelou-se um excelente ponto de partida para o Canadá comerciar com os EUA sem precisar correr os riscos associados a investimentos diretos naquele país em meio a uma crise.
Além disso, o Canadá constitui interessante paradigma para a economia brasileira. Não obstante o Canadá gerar aproximadamente 35% de seu PIB com o comércio internacional, a exemplo do que também ocorre no Brasil, as commodities e os recursos minerais pesam consideravelmente no PIB canadense. A “ortodoxia” que prevalecia há muitos anos no Brasil era de que commodities e exportações de minérios eram típicas apenas de países “em desenvolvimento”. O Canadá derruba esse mito. Trata-se de uma economia desenvolvida, com elevado padrão de vida, que se beneficia da eficiente exploração de seus recursos naturais.
O Canadá também atua de forma marcante na economia global no contexto dos fatores “acessórios”. É membro do G-7 e desfruta de um nível de influência desproporcional ao seu tamanho. Sua classificação de risco de crédito é AAA. Compartilha dos valores e dos princípios democráticos de outras nações do Ocidente.
A atual dificuldade em crescer dos EUA e das economias desenvolvidas da União Europeia provavelmente se estenderá por algum tempo. Além disso, não há volta à condição anterior que caracterizava a economia global antes da crise de 2008 (veja minhas newsletters em www.criticalcorp.com.br). O mundo mudou e tornou-se mais pluralista. Tanto o Brasil quanto o Canadá têm muito a ganhar se construírem uma sólida relação bilateral. Então, vamos lá!
Tradução para português: BeKom Comunicação Internacional
*Jim Wygand, mestre em Economia pela Universidade de Wisconsin e diretor da CCBC
O Canadá é uma economia desenvolvida que se beneficia da exploração de seus recursos naturais
Brasil e Canadá têm muito a ganhar se construírem uma sólida relação

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