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Edição nº 30
Artigo
Entre a cruz e a espada
Notícias de que o Brasil começa a sentir um aumento da inflação são corretas, mas o contexto atual é diferente daquele de anos anteriores. Um dos componentes da inflação é importado na forma de preços de commodities em ascensão no exterior. Ainda que o real tenha se apreciado em relação ao dólar americano, a inflação de preços de importação anulou as vantagens obtidas com a desvalorização do dólar. Em segundo lugar, o alívio quantitativo nos EUA, acompanhado por aumentos na taxa básica de juros no Brasil, resultou em um fluxo de dólares para o país, à procura dos ganhos proporcionados pelo mercado financeiro local. O governo vem aumentando a tributação de fundos de arbitragem, mas, até abril, os impostos foram insuficientes para estancar o fluxo de dólares.
Ao nível doméstico, as fontes de inflação são: continuada demanda forte por parte da nova classe de consumidores no Brasil, inflação causada por salários, aparentemente resultante da escassez de mão de obra qualificada, além do déficit público. Com exceção do gasto público, as duas outras fontes de inflação são relativamente novas no Brasil.
Adam Smith escreveu que a burguesia emergente da revolução industrial e comercial lutaria com unhas e dentes para manter o seu novo status material. É pouco provável que a nova classe de consumidores no Brasil proceda de outra maneira porque ela é, em grande parte, insensível à taxa de juros embutida em suas prestações de compras financiadas. De fato, as compras são decididas com base no fluxo de dinheiro disponível e no tamanho da prestação mensal. Por isso, é preciso que haja um aumento muito grande na taxa de juros para que ocorra um desestímulo ao consumo.
Além disso, existe o fato de que os salários reais vêm aumentando em razão da falta de mão de obra qualificada. Acordos de trabalho coletivo nesse período recente de um ano e pouco resultaram em aumentos salariais acima da taxa de inflação, de modo que o grupo de consumidores emergentes ainda tem crescente poder aquisitivo.
Finalmente, a valorização do real incentivou a compra de bens de consumo. Há, de certo modo, um “fator status” ao se adquirir produtos importados e, com maior poder de compra e preços de importados mais baixos, os consumidores continuam comprando.
O governo precisa começar a arrumar a própria casa. Não faz sentido tentar inibir o desenvolvimento de uma classe de consumidores no Brasil. Além disso, há muito tempo o nível e a qualidade de gastos do governo têm sido a causa primária de inflação. Pela primeira vez em muitos anos, o governo agora fala publicamente a respeito do “Custo Brasil”. Por si só ele faz com que o custo de fabricação no Brasil seja alegadamente 36% mais alto do que na Alemanha ou França. A presidente Dilma Rousseff sinalizou que a reforma tributária é um item destacado em sua lista de prioridades.
É preciso sistematicamente enfrentar as deficiências de infraestrutura. Por exemplo, no cinturão tropical brasileiro, os ventos alísios podem proporcionar uma fonte contínua de energia eólica. Entretanto, em algumas localidades, a qualidade das estradas é tão precária que as transportadoras não conseguem trazer as enormes pás das hélices utilizadas para gerar energia. Em suma: sem estradas não há fontes alternativas de energia. O governo tem consciência da necessidade de se resolver este e outros problemas relacionados à infraestrutura, mas isso exige coordenação com o Legislativo, bem como sua atuação.
O Brasil ainda é um destino de investimentos interessante, pela simples razão de que a classe emergente de consumidores há décadas vem sofrendo de consumo postergado devido à erosão salarial causada pela inflação. De fato, uma inflação anual de 6% ou 7% no Brasil é relativamente moderada na comparação com a hiperinflação (uma taxa anual projetada em torno de 8.000% em 1991-2). Existe ampla vontade política de se lidar com o problema, mesmo que isso signifique mexer na taxa de câmbio para resistir às pressões pela sua apreciação. Depois que se abre a porta da prosperidade sustentada, é muito difícil, senão impossível, fechá-la!
*Jim Wygand, mestre em Economia pela
Universidade de Wisconsin e diretor da CCBC

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