|
Edição nº 30
Matéria da Capa
Reserva de Investimentos
A meta de produzir 1 milhão de barris por dia do
pré-sal até 2017, associada a novas descobertas na Bacia de Campos (RJ) e a investimentos de US$ 174 bilhões da Petrobras, consolida o Brasil como um mercado atrativo para empresas canadenses interessadas em parcerias e no desenvolvimento de soluções inovadoras
Em abril deste ano, a Petrobras fez sua primeira venda de petróleo do pré-sal para o exterior, comprometendo-se a entregar 1 milhão de barris do campo de Lula – considerado o primeiro supergigante do país, localizado na Bacia de Santos, em São Paulo –, para a estatal chilena Empresa Nacional de Petróleo (Enap). No mesmo mês, a companhia iniciou um teste de longa duração (TLD) em Brava, no pré-sal da Bacia de Campos (RJ), com a expectativa de conseguir uma produção diária equivalente a 6 mil barris. Para a indústria, as duas bacias, marcadas pelo início das operações comerciais e pela renovação de investimentos, respectivamente, se tornaram sinônimos de novas oportunidades para empresas nacionais e estrangeiras. Destas, as canadenses estão entre as mais preparadas para oferecer soluções, compartilhar tecnologias e iniciar parcerias de longa duração.
A experiência no setor tem origem na tradição em óleo e gás do Canadá. Em 2010, Newfoundland and Labrador, uma das regiões mais produtivas do país, aumentou em 3 milhões de unidades o total de barris, o que representou uma alta de 3,1% em relação a 2009. Parte deste resultado foi consequência de investimentos, feitos nos últimos anos, nas reservas de Hibernia e Terra Nova, responsáveis por cerca de 80% do óleo bruto retirado do solo pelas empresas operadoras.
“O grande potencial das descobertas do pré-sal na costa do Brasil, junto com o desenvolvimento contínuo das tradicionais áreas de offshore, gera oportunidades interessantes para companhias canadenses experientes nesse tipo de exploração e no fornecimento de produtos e serviços para grandes cadeias de produção”, aponta Véronik Levesque, coordenadora de Comunicação da Atlantic Canada Opportunities Agency (Acoa), entidade de promoção econômica do Canadá Atlântico.
Entre especialistas, empresários e representantes oficiais, a percepção é de que o mercado brasileiro tem um grande poder de atração de investidores. As medidas da Export Development Canada (EDC), como a realização de missões comerciais e a liberação de linhas de crédito, seguros e outros recursos financeiros de estímulo à exportação, demonstram isso. “Somente a Petrobras realiza compras anuais por valor de cerca de US$ 100 milhões de aproximadamente 50 companhias canadenses. O interesse é muito grande em fazer parte do grupo de parceiros da estatal”, afirma Jean Cardyn, vice-presidente da entidade no Brasil.
transferência de tecnologia – “Os estrangeiros querem participar do nosso mercado, sem necessariamente fabricar ou prestar serviços a partir do Brasil. A procura por informações, no nosso caso, aumentou cerca de 50% neste ano, em comparação com 2010. A maior parte desse interesse está relacionada com a exportação direta para o Brasil”, expõe Bruno Musso, superintendente da Organização Nacional da Indústria do Petróleo (Onip), que dá suporte para a realização de negócios. Para o executivo, a transferência de tecnologia e o aumento da capacidade instalada são os principais ganhos de um maior intercâmbio bilateral. “Quem chega e se une a um fornecedor da Petrobras, por exemplo, ganha tempo, e o setor assimila tecnologia. As vantagens são mútuas”, acrescenta.
Na Petrobras, as portas estão abertas para a colaboração estrangeira. Com inúmeros projetos sobre a mesa, a estatal, que deve investir US$ 174 bilhões até 2013, conciliará o desenvolvimento da indústria nacional com a participação de grupos do exterior em diversas etapas do pré-sal, considerado uma revolução: Marlim, Marlim Sul e Roncador (Bacia de Campos), principais perfurações no passado, com volumes recuperáveis entre 2,5 bilhões e 3 bilhões de barris, perdem destaque se comparadas a Lula e Cernambi (Bacia de Santos), com reservas estimadas em 6,5 bilhões e 1,8 bilhões de barris, respectivamente.
“A estratégia inicial foi de nos prepararmos para o pré-sal, e agora estamos na fase de desenvolvimento de projetos-piloto, como os de Lula, Lula Nordeste, Guará, Guará Norte e Cernambi Sul, para ganharmos escala no curto prazo. Até 2017, nosso objetivo é produzir cerca de 1 milhão de barris por dia no pré-sal”, explica José Luiz Marcusso, gerente geral da Unidade de Operações de Exploração e Produção na Bacia de Santos.
Para atingir essa meta, a estatal terá de encontrar quem tenha conhecimento técnico especializado para a construção de infraestruturas (e a logística envolvida), engenharia submarina, controle de temperaturas e pressão, desenvolvimento de plataformas com acesso direto às reservas, entre muitas outras demandas. “As parcerias reforçam o conteúdo nacional, tendo como base o ganho de competitividade internacional e a redução de custos”, detalha.
Em 2010, representantes do governo canadense e da Acoa visitaram a Petrobras e acompanharam executivos da empresa em missões comerciais no Canadá. Muitas das plataformas do país estão localizadas no solo, ao contrário da exploração marítima na costa atlântica. O potencial para futuras sinergias, neste caso, é real. “Diversas companhias canadenses orientadas para a exportação desenvolvem produtos e serviços especializados que integram cadeias mundiais de petróleo e gás. Como o Brasil tem planos ambiciosos de crescimento, a atuação em conjunto pode ser fundamental”, reforça Véronik.
soluções específicas – Com o setor aquecido, as parcerias aumentam. Para a SkyWave, fornecedora global de equipamentos de comunicação satelital e serviços de conexão, com sede em Ottawa (Ontário), elas podem ser um caminho para oportunidades. “Em 2010, participamos da feira Rio Oil & Gas em busca de parceiros e de conhecimento. O Brasil, que é um dos nossos principais mercados em outros setores, tem uma indústria enorme de petróleo e gás. Oferecemos tecnologia para que as empresas consigam monitorar, controlar ou rastrear ativos remotos em tempo real, como navios, geradores e oleodutos. Com o pré-sal, as perspectivas de novos negócios são ainda mais promissoras”, avalia Silvio Ostroscki, diretor de Vendas para a América Latina.
A forma de atuar no país e no mundo, explica o executivo, é buscar parceiros capazes de criar tecnologias específicas para as demandas locais. “Por isso, procuramos fornecedores de soluções para grandes grupos, como a Petrobras, que possam transformar a nossa tecnologia em produtos sob medida para as necessidades de seus clientes”, complementa. Diante das possibilidades, também empresas canadenses que ainda não se instalaram observam o país com curiosidade e se movimentam para descobrir por onde começar.
“Por muitos anos, percebemos o enorme potencial do Brasil para a nossa empresa. A dimensão e a complexidade técnica do desenvolvimento do pré-sal reforçam esse quadro”, observa Anthony Hall, CEO da Welaptega, especializada em tecnologias de captação de dados e segurança submarina. Os segmentos de maior interesse, neste caso, são os de construção em águas profundas e de inspeção, reparação e manutenção de atividades de instalações flutuantes de produção na Bacia de Campos. Com encontros marcados com executivos da Petrobras e alguns de seus fornecedores, Hall não tem dúvidas de que o Brasil e o Canadá têm muito a explorar para fortalecer o intercâmbio na área.
“Para isso, no entanto, é fundamental o acesso à informação, em especial no que diz respeito à criação de empresas subsidiárias. Para as pequenas e médias companhias, um conhecimento profundo das exigências legais, do sistema bancário e da manutenção de sociedades é crucial na fase inicial do negócio”, destaca.
distribuição de recursos
US$ 174 bilhões para petróleo e gás (de 2009 a 2013)
Exploração e produção - US$ 104,6 bilhões
Abastecimento - US$ 43,4 bilhões
Gás e energia - US$ 13 bilhões
Petroquímica - US$ 4,4 bilhões
Distribuição - US$ 3 bilhões
Biocombustíveis - US$ 2,8 bilhões
Corporativo - US$ 3,2 bilhões
Fonte: Petrobras
Produção adicional
As novas descobertas na Bacia de Campos, no Rio de Janeiro, aumentam as oportunidades de investimentos estrangeiros e de parcerias entre brasileiros e canadenses. Nos últimos dois anos, a Petrobras encontrou novas reservas que, juntas, somam cerca de 2 bilhões de barris. A previsão é de que os achados financiem parte dos projetos de exploração do pré-sal da Bacia de Santos (SP):
Bacia de Campos
Poços em operação - 775
Poços produtores - 591
Plataformas fixas - 14
Participação total de reservas - 10%
Estratégia para o pré-sal
Ampliar a capacidade produtiva de setores altamente competitivos;
Desenvolver concorrência em setores de média competição;
Incentivar novos entrantes nacionais;
Incentivar a associação entre companhias nacionais e internacionais;
Incentivar a instalação de empresas internacionais no Brasil.

|